O Diaconato Permanente na Igreja

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos

Nos primórdios do Cristianismo, São Paulo escreveu para a comunidade de Coríntios, manifestando seu posicionamento, ao tempo em que também orientava, sobre a presença do leigo nas ações mais efetivas da Igreja, à época ainda em construção, sem a complexidade do tempo presente.

           

O presente texto tomará como base o texto do Apóstolo Paulo e pretende ser breve, pontual e cirúrgica, com o afã de deixar inquietações e provocações que levem, cada vez mais, a Igreja Católica a pensar sobre o papel do leigo para além da pastoral e dos grupos de oração, entendendo, em definitivo, que as demandas da pós-contemporaneidade exigem um novo perfil de evangelização e um novo perfil de evangelizador.

           

Paulo exorta aos Coríntios dizendo: “Eu gostaria que estivésseis livres de preocupações. O homem não casado é solícito pelas coisas do Senhor e procura agradar o Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo e procura agradar à sua mulher e, assim, está dividido” (1Cor 7, 32-34). Longe de ter sido uma norma, o Apóstolo usa um tom de aconselhamento e até entende que o faz na perspectiva de desejar o melhor para aqueles que servem a Jesus Cristo, congregados e comprometidos. Sua assertiva, de alguma forma estabeleceu um divisor de águas no seio da Igreja, em grande medida como aporte até mesmo para justificar o caráter celibatário do Sacerdote e da vida religiosa.

           

Na formação histórica e religiosa do Brasil, pelo menos até a separação entre a Igreja e o Estado em 1891, sobretudo pela existência do Padroado Português, o clero fez mais às vezes do tempo civil que as obrigações do tempo religioso. Desse modo, o leigo, a partir da atuação nas Confrarias e Irmandades, foi fator decisivo na assistência e formação espiritual dos católicos. Com a Romanização, esse quadro mudou e o Sacerdote assumiu as rédeas da evangelização e também da organização da Igreja. O leigo seguiu atuando, mas de forma cada vez mais secundária, coadjuvante e por vezes, com o perdão da sinceridade, e franqueza até subalterna.

           

O pós-Concílio Vaticano II realocou o leigo no seio da Igreja e até a presente data, sobretudo com e a partir do Ano do Laicato, redimensionou seu papel e sua posição, qual seja a de caminhar com o Sacerdote e com o religioso, dentro de suas limitações e asseverando-se do lugar que cada sujeito ocupa no cenário da messe, que segue grande e com tão poucos operários.

           

Esta discussão traz à baila a necessidade de pensar sobre algumas questões em torno do Diaconato Permanente. Afinal, são inúmeros os homens casados, divididos ou não, preocupados ou não, que anseiam servir a Deus e a agradá-lo de forma mais comprometida e intensa. O Diácono, no chamado Ministério Eclesiástico, é o primeiro grau da ordem dos homens que se dedicam ao serviço de Deus. Para que a compreensão de seu papel fique clara, é importante frisar o que diz o Catecismo da Igreja a respeito: “Os diáconos participam de modo especial na missão e graça de Cristo. São marcados pelo sacramento da Ordem com um sinal («caráter») que ninguém pode apagar e que os configura a Cristo, que se fez «diácono», isto é, servidor de todos. Cabe aos diáconos, entre outros serviços, assistir o Bispo e os padres na celebração dos divinos mistérios, sobretudo a Eucaristia, distribuir a Comunhão, assistir ao Matrimônio e abençoá-lo, proclamar o Evangelho e pregar, presidir os funerais e consagrar-se aos diversos serviços da caridade”.

           

E aqui, cabe adentrar num dos aspectos que provocam muita resistência na seara leiga e mesmo clerical ao avanço e disseminação desta função/vocação na Igreja: o Diácono não substitui a importância e o valor Eclesiástico de qualquer autoridade, seja ela Sacerdotal ou Episcopal, uma vez que o diaconato é eminentemente serviço e assistência. Para além desse ponto em especial, cabe ainda frisar mais três outros tão polêmicos e complexos quanto o primeiro: 1) o tipo de preparo e escolha do Diácono; 2) a preocupação com o empoderamento do leigo; 3) o receio de que o Sacerdote seja ofuscado, sobretudo frente a um possível, nem sempre fato, carisma e mesmo capacidade, até mesmo intelectual, do Diácono. Estes elementos revelam a fragilidade da instituição e do quanto ainda será necessário caminhar e avançar para o bem da Igreja e Glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. São questões, em pesem uma discussão madura, franca e desprovida de quaisquer vaidades, que se bem cuidadas só reverterão em benefício para a efetividade da evangelização que o tempo presente exige.

           

Nesse sentido, o Padre Fábio de Melo é bastante incisivo: “Acredito muito na possibilidade de, no futuro, quem sabe, a Igreja ordenar homens casados… por que não? Tanta gente de bem que poderia fazer um trabalho bonito dentro da Igreja, como um pai de família” (Participação no programa “Altas Horas”, da Rede Globo, em agosto de 2017). Em outra direção, mas não menos importante e até mais precisa, merece destaque a fala do o Padre Walter Goedert, extraída do site da Comissão Nacional dos Diáconos Permanente: “Dado que o diácono permanente é simultaneamente pai e esposo, exerce uma profissão civil e se consagra à comunidade eclesial pelo sacramento da Ordem, sua vocação abrange vários aspectos. Na verdade, são três grandes dimensões: familiar, profissional e eclesial. Embora com desafios próprios, estas não deixam de contribuir positivamente para a realização da vocação diaconal.
Administrar esses desafios e colocá-los a serviço da missão constitui tarefa diária. É preciso maturidade para atribuir a cada função o peso certo no momento exato. A harmonização dos possíveis conflitos exige uma escala de valores ditada pela vivência dos sacramentos do Matrimônio e da Ordem, e pela responsabilidade profissional. Não se trata de privilegiar uma das dimensões em detrimento das outras; é preciso, mesmo dando prioridade momentânea a uma delas, buscar o equilíbrio. Sem essa harmonia não existe plena realização vocacional
”.

Para além das inquietações do Apóstolo Paulo, o mundo precisa de uma somação urgente de esforços e vontades. Ser Igreja não é ser pessoa. A participação de todos, cada um em seu lugar e no tempo de Deus, ensejará novos céus e novas terras, onde o Diaconato Permanente têm, se não um papel decisivo de mudanças profundas, ao menos como mola propulsora.

* Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe. Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade (Diocese de Estância), Lagarto-Sergipe.

Tomado de: cnd.org.br

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