Um diaconado renovado completa a Igreja

Enviado por: Mario Henrique Pinto
Nos últimos séculos, o diaconado gozou apenas de um papel simbólico ou de transição na Igreja. O clero paroquial é ordenado ao presbiterado só depois de servir brevemente no diaconado. É como se os diáconos esperassem «seguir em frente!» ou «moverem-se para cima!». O diaconado foi reduzido a pouco mais do que uma preparação ou premissa para o presbiterado ou para o episcopado. Os dois últimos degraus são muitas vezes considerados mais significativos no ministério ordenado, enquanto o diaconado se assemelha a um tipo de sub-presbiterado, raramente percebido como uma função permanente.
Mas não foi sempre esse o caso. Juntamente com o bispo e os presbíteros, os diáconos foram considerados por Inácio de Antioquia, no final do século I, parte essencial da estrutura da igreja, que realiza sua unidade — de forma mais completa e abrangente — quando a comunidade está «com o bispo e os presbíteros e os diáconos que estão com o bispo… Sem eles», acrescenta Santo Inácio, «[a comunidade] não pode ser chamada de igreja» (Carta aos Tralianos).
São João Crisóstomo lembra-nos o modo como a Igreja primitiva enetndeu os diáconos quando observa: «até os bispos são chamados de diáconos» (Homilia sobre a Carta aos Filipenses, 1). Na verdade, no tempo dos apóstolos, não há indicações de que o diaconado fosse uma condição ou requisito para a elevação ao presbiterado. É por isso que estou convencido de que não pode haver uma compreensão clara do presbiterado — ou mesmo do episcopado — se não apreendermos e apreciarmos primeiro o diaconado em si mesmo. Assim, no início do século VII, Isidoro de Sevilha afirmou corajosamente que, sem o ministério dos diáconos, o presbítero tem o nome, mas não o oficio; o presbítero consagra, reza e santifica; mas o diácono dispensa, recita e partilha (De Ecclesciasticis Officiis).
Uma visão mais completa do ministério ordenado tem de reconhecer o papel do bispo como o vínculo da unidade e o porta-voz para a doutrina. Da mesma forma, tem respeitar o papel do presbítero na celebração da presença de Cristo na comunidade local. No entanto, também tem de perceber o papel do diácono como servidor que completa e complementa esse círculo de unidade e comunidade na Igreja local. O serviço dos diáconos vai além da liturgia e chega à comunidade como um dom na administração, na educação, na orientação pastoral e espiritual e no trabalho juvenil. E, na minha opinião, esses papeis podem ser facilmente realizados tanto por homens como por mulheres.
A nossa teologia do ministério ordenado — atualmente vista como uma pirâmide com o episcopado no topo — tem de ser invertida, começando não de cima para baixo, mas brotando da noção elementar e essencial da diaconia; refletindo aquele que «não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida» (Mc 10, 45); serviço e sacrifício sem os quais nenhuma das ordens sacerdotais faz qualquer sentido. Qualquer revolução na nossa apreciação e realização do ministérios ordenado, em toda a sua amplitude e diversidade, em última análise, virá de baixo para cima, a partir das bases. É aí que os nossos fiéis sabem o que importa e o que funciona na igreja. É também aí que os nossos fiéis percebem as dimensões e as implicações mais amplas do ministério pastoral. É por isso que é crucial que ocorra uma revitalização do diaconado, tanto para uma reorientação do nosso ministério ordenado como para uma revitalização do nosso ministério pastoral.
Agora, ao mesmo tempo que mantém um sentido de simetria dentro do ministério ordenado, o diaconado também mantém um equilíbrio de poder na Igreja. Creio que está aqui o coração do problema: a resistência feroz da Igreja a qualquer desafio à sua atual autoridade institucional. Temos de aprender a procurar uma atitude de humildade e não de poder, a praticar formas eclesiais impregnadas pela simplicidade e não pela cerimónia, a manter uma visão de transformação da Igreja de uma organização hierárquica numa comunidade de serviço, sem nostalgia do passado, mas com abertura em relação ao Reino.
Sem diáconos, uma paróquia torna-se progressivamente insular em vez de católica, mais paroquial do que global. Os diáconos asseguram a dimensão universal da igreja. Os diáconos são, de muitas maneiras, o elo que falta na preservação da plenitude da doutrina da Igreja ou, no mínimo, na prevenção de um certo «monofisismo» na igreja institucional. Bem sabemos que a Igreja prega um Deus  entendido como Trindade e uma Igreja concebida como comunidade.
Se entendermos adequadamente o diaconado, também entenderemos melhor as outras ordens do ministério ordenado. Compreendemos porque é que e as mulheres podem naturalmente — com isto quero dizer, segundo a tradição e não como exceção — participar do diaconado sem que tal provoque receio da sua ordenação para o presbiterado ou da discussão teológica anterior sobre o ministério ordenado masculino. O diálogo sincero sobre o ministério ordenado só pode enriquecer o nosso apreço tanto por ele como pelo sacerdócio real. E «se essa ideia ou obra é de origem humana, falhará; mas se for de Deus, ninguém poderá derrubá-la» (At 5, 38-39).
Desta forma, o diaconado será expandido e potenciado de modo a refletir uma expressão ministerial moderna, se bem que enraizada na experiência apostólica histórica. Afinal, para além da administração e da autoridade na Igreja, há o serviço e… o servir. Para além da observância da liturgia e dos sacramentos, está a atenção às pessoas, qual altar vivo do Corpo de Cristo. Talvez os diáconos despertem gradualmente outros ministérios novos, não restritos às funções e expectativas tradicionais. Um renascimento criativo do diaconado para homens e mulheres no nosso tempo pode converter-se em fonte de ressurreição para o ministério ordenado como um todo, desempenhando assim um papel crucial na mais ampla missão da Igreja. A este respeito, a restauração do diaconado pode bem revelar-se tão oportuna quanto vital.
John Chryssavgis
Diácono da Diocese Ortodoxa Grega da América
Public Orthodoxy (1 dez 2017)
Tomado de: ecumenismodioceseporto.blogspot.com.es

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