ESCUTADO PARA SER CORRESPONSÁVEL NA MISSÃO

ESCUTADO PARA SER CORRESPONSÁVEL NA MISSÃO

“A sinodalidade está ao serviço da missão da Igreja, na qual todos os seus membros são chamados a participar. Dado que todos somos discípulos missionários, de que maneira cada um dos batizados é convocado para ser protagonista da missão? Como é que a comunidade apoia os seus membros comprometidos num serviço da sociedade (na responsabilidade social e política, na investigação científica e no ensino, na promoção da justiça social, na salvaguarda dos direitos humanos e no cuidado da Casa Comum e outros)? Como os ajuda a viver estes compromissos, numa lógica de missão? Como se verifica o discernimento a respeito das escolhas relativas à missão e quem participa? Como foram integradas e adaptadas as diferentes tradições em matéria de estilo sinodal, que constituem a herança de muitas Igrejas, especialmente as orientais, em vista de um testemunho cristão eficaz? Como funciona a colaboração nos territórios onde estão presentes diferentes Igrejas sui iuris [independentes]?”. São estas as perguntas, embaraçosas, que se encontram no documento preparatório do Sínodo -2023 e que nos ajudarão a pensar sobre o que é isso de sermos corresponsáveis, porque só o poderemos ser quando formos escutados de forma contundente.

Mas, mais adiante o mesmo documento fala sobre “Dialogar na Igreja e na Sociedade”, e diz: “O diálogo é um caminho de perseverança, que inclui também silêncios e sofrimentos, mas é capaz de recolher a experiência das pessoas e dos povos. Quais são os lugares e as modalidades do diálogo no seio da nossa Igreja particular [Diocese]? Como são enfrentadas as divergências de visão, os conflitos, as dificuldades? Como promovemos a colaboração com as Dioceses vizinhas, com e entre as comunidades religiosas no território, com e entre associações e movimentos laicais e outros? Que experiências de diálogo e de compromisso partilhado promovemos com crentes de outras religiões e com quem não crê? Como é que a Igreja dialoga e aprende com outras instâncias da sociedade: o mundo da política, da economia, da cultura, da sociedade civil, os pobres?”. Estas são mais uma série de perguntas acutilantes a que não sabemos responder, mas temos de aprender.

Nestas duas seções existem o desapego aos poderes instituídos, e, claramente, ao remeter as respostas para o Povo de Deus, uma profundidade que vai contribuir para que a hierarquia escute seriamente o que se vai passando neste século XXI. Claro, que pensamos, que as perguntas tão pertinentes que são colocadas vão ter um tratamento que se quer desfasado da realidade. Neste momento existirão pensadores que colocam em questão estas e outras perguntas, e tudo farão para que aquele sentimento que o Povo de Deus tem da Igreja não seja apresentado nem aos bispos, nem ao Sínodo. Aliás, como poderemos ter a certeza de que a cruzada contra o bispo de Roma e o Sínodo não será o encobrimento do pensamento das bases? Nem o Povo de Deus estará assim tão disponível para servir de “rampa de lançamento” que deturpa e apazigua os sentimentos reais que são sentidos há já centenas de anos. E quem irá contra aquilo que o padre disser?
Os diáconos têm aqui um papel fundamental a exercer: esclarecer, mas não direcionar as respostas e verificar se as famosas “dez páginas” de cada diocese e de cada conferência episcopal traduzem ou não a franqueza com que as pessoas transmitirão as suas observações. Não me poderei esquecer nunca que aquando do Sínodo dos Jovens (que na prática nunca teve qualquer influência), numa reunião, o senhor padre encarregado dos jovens dizia sobre a “igualdade de género”, que esse assunto estava completamente de fora daquilo que o sínodo e as dioceses quereriam. Pois este senhor padre ficou a saber – eu lho disse – que se era assim então uns 60 a 70% dos jovens de hoje não se reconheceriam no Sínodo. “É assim, porque a Igreja manda que o seja”, obtive como resposta; então o sínodo não escutou o parecer dos jovens, ficou-se com o que já tinha, exceto uns “rebuçados” para apaziguar os ânimos.

Nós diáconos, casados, pais e até avós, temos esperança de que este Sínodo não vá por esse caminho e ouça, ouça de ouvir, as pessoas, não deturpe e cessem os poderes que sufocam a vida. Nós, que às vezes somos estrangulados, haveremos de ser sinais de Jesus no meio da debandada em que se encontra a Igreja europeia.

Joaquim Armindo
Pós – Doutorando em Teologia
Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental
Diácono – Porto – Portugal

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