ASSEMBLEIA DOS DIÁCONOS DO PORTO, PORTUGAL: MINISTROS DE PROXIMIDADE

 

“Numa análise cuidada do documento [documento que a Comissão Episcopal Portuguesa -CEP], enviou para reflexão e proposta de alterações] pareceu-nos que estas questões urgentes não estão nele completamente respondidas. Ele espelha e compila grandemente o já publicado pelo magistério pós-conciliar – o que possibilita um maior e melhor programa sobre o diaconado permanente e assim alguma clarificação-, mas, convenhamos, não tem sido suficiente para um esclarecimento cabal das questões supra formuladas. Mais, não nos parece que o documento considere e reflita a realidade sociológica e pastoral do diaconado permanente nacional. Não só não carateriza aqueles que foram chamados pela igreja portuguesa, como não determina as necessidades pastorais da igreja que correspondam ao chamamento feito a estes. Esta falta de caraterização e determinação dificultará o traçar de um rumo. No texto em análise recorre-se com frequência, à afirmação do diaconado pela negativa dizendo mais o que ele não é do que afirmando a sua essência; recorre-se também amiúde ao contraponto que servirá para estabelecer limites e fronteiras, mas diz pouco do seu cerne. Aliás, estas fronteiras bem delimitadas parecem-nos pouco carismáticas: há muito de serviço (diaconia) nas variadas funções dos diversos graus do sacramento da ordem que podem (e talvez devam) ser comunhão e partilha e não vistas como sobreposição excludente que fronteiras bem delimitadas afirmarão.”, este extrato de um dos documentos enviados por um dos grupos de reflecção, à Assembleia dos Diáconos do Porto, sobre o diaconado em Portugal.

Nesse documento ainda se refere quanto à espiritualidade do diácono, que: “A redação do ponto cinco, A dimensão da diaconia na espiritualidade cristã, é muito desconexa, não tem fluidez, está muito centrado numa espiritualidade da Caridade – que, como dissemos, deve ser nuclear – mas esquece quase por completo, a espiritualidade que os outros múnus conferem à diaconia. Fala-se numa “espiritualidade específica do diácono” – que se compreende, pois em função da sua ordenação torna-se ministro e isto há de pressupor uma ação concreta na igreja à qual, pela específica ordenação, está chamado –, mas logo a seguir, numa mesma frase, se diz que esta espiritualidade afinal não é específica pois é igual à de toda a igreja. Não se distingue a ordem da graça da ordem dos meios da graça; esta última apenas conferida pelo sacramento da ordem e, portanto, também recebida pelos diáconos. O que terá de significar que a espiritualidade do diácono não é igual à espiritualidade dos seus irmãos leigos. Percebe-se a configuração a Cristo Servo, devida ao diácono e a toda a igreja, que a afirmação pretende, mas esta redação esvazia de sentido uma possível, e devida, afirmação de uma espiritualidade específica, ministerial, do diaconado”, pelo que os diáconos apelam para a revisão completa, no que se refere à espiritualidade.

As interrogações inscritas no documento que foi enviado, coloca as seguintes questões: “Qual a identidade e ministério específico do diácono permanente num contexto social e eclesial tão diversificado? Que relacionamento se poderá estabelecer entre a sacramentalidade do diácono e a sua inserção na vida familiar e presença na sociedade? Que formação e condições de vida tendo em conta a possibilidade de escolha entre celibato ou vida matrimonial? O que é específico e essencial na fidelidade à tradição e às necessidades atuais?” (Introdução, pág. 3), Um outro grupo referia. “Em tese (o documento que tivemos em mãos enumera uma série de funções, mais ou menos genéricas). No entanto, a sua aplicação prática, precisa de ser mais bem clarificada, sob pena do diácono ficar à mercê do que pensa a respeito o pároco respetivo.”

A reflexão dos dois grupos aqui transcrita, em poucas palavras, assim como na dos outros dois grupos que existiam, não deixaram de referir, que: “A Igreja em Portugal, a que a do Porto não fica alheia, deve ter consciência que há um subaproveitamento do diaconado, pelas várias razões sobejamente conhecidas, pelo que o documento deve deixar bem explícito que a Igreja precisa muito de evangelizar e que detém nos diáconos ministros ordenados capacitados, logo capazes para colaborar na evangelização do Povo de Deus. Povo de Deus que reclama hoje por tempo: tempo para o auscultarmos, tempo para uma Eucaristia celebrada com tempo e não à pressa, porque tem-se outra logo a seguir”.

A Assembleia dos Diáconos da Diocese do Porto, realizada em 20 de abril, via internet, contou com cerca de 50% dos diáconos da diocese do Porto, foi dirigida pelo senhor Bispo do Porto e pelo Delegado Episcopal para o Diaconado. A uma pergunta efetuada por um diácono do porquê não existir a cerimónia de renovação dos votos dos diáconos, como o fazem os presbíteros, foi afirmado de que não há liturgia para tal. Acabamos de saber, no entanto, que em França tal é realizado, e pensa-se que deve caber a sua realização por decisões das Dioceses e da CEP. Estas reflexões seguiram para a CEP em devido tempo; acontece que a CEP aprovou o documento inicial, que tinha vindo para reflexão dos diáconos, não tendo considerado as propostas e apenas limado um pouco o documento final, que ainda não viu a luz do dia.

 

Os diáconos da Diocese do Porto farão sempre o seu trabalho, mas não existem dúvidas que estão desanimados pela forma como são tratados, salvo um ou outro caso, e muitos estão mesmo “sem nada para fazer”. Talvez a solução seja “cativar os párocos”, como o bispo do Porto referiu na sua palavra final. Mas, também, os diáconos do Porto preferem que o “cativar” deve ser um processo de levar a Evangelização de Jesus ao nosso Povo, que procura ardentemente uma outra forma de ser igreja; não se coloca em dúvida que já foram cativados pela Graça de Deus e, agora, pretendem “cativar” e ser “cativados” pelas populações, no sentido de uma espiritualidade, que tantos procuram fora do Evangelho de Senhor. Estão, pois, os diáconos dispostos a “cativar” e ser “cativados”, para uma água que conduza a uma sede de outra Vida, e não a “cativar” quem faz parte do mesmo rebanho.

Joaquim Armindo

Pós-doutorando em Teologia
Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental
Diácono – Porto -Portugal

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