“ARMAS DE EXCLUSÃO”

ARMAS DE EXCLUSIÓN

Na revista “Concilium”, 416, última, “Teologiás Del Cuerpo: Trazado de Cartografías”, um artigo intitulado “Romper La Dualidad Corporal: la presencia profética de los cuerpos trans en la Iglesia”, da autoria da teóloga ecofeminista e religiosa, Metti Amirtham, SCC, reflete sobre vários exemplos de mulheres na Igreja Católica. Das histórias que conta salientamos duas. A primeira de Maria que é “uma mulher transgénero, queria converter-se em religiosa para servir o Senhor. Por isso, uniu-se a uma obra religiosa, depois de terminar o bacharelato. Quando a ordem descobriu a sua identidade sexual alternativa durante os três anos de formação religiosas, a expulsou alegando que não tinha vocação. Nem a sua família nem a ordem a queriam com eles.” A segunda, “em uma paróquia da cidade de Bengalore, na India, uma mulher transgénera chamada Priya senta-se todos os domingos no último banco da igreja. Chega sempre antes da maioria das pessoas. Leva a cabeça coberta. Ninguém a saúda. Ninguém lhe dá o sinal da paz. Durante a eucaristia, não recebe a comunhão, sofre miradas cautelosas de quem finge não a ver. Contudo, volta semana após semana. “Esta é sempre a minha igreja”, diz, “Mas é sempre a minha Igreja, mesmo que me queira, sigo como seja parte integrante dela”.

Estes exemplos evidenciam como, ainda hoje, a exclusão de pessoas trans na Igreja é uma realidade pungente, que desafia a própria essência do Evangelho de acolhimento e amor ao próximo. A recusa em reconhecer e integrar plenamente estes corpos na vida comunitária revela mecanismos institucionais e culturais que perpetuam o preconceito e a marginalização. Assim, é urgente promover um diálogo aberto e compassivo, capaz de derrubar barreiras e construir verdadeiras pontes de inclusão, onde todos sejam vistos e respeitados na sua dignidade única.

Além destes relatos, é fundamental reconhecer que a exclusão não se limita apenas ao espaço litúrgico, mas também se manifesta em múltiplos níveis da vida paroquial, incluindo o acesso a cargos de liderança, participação em atividades pastorais e até mesmo nas relações interpessoais. O silêncio institucional diante das dores e aspirações das pessoas trans reforça uma cultura de invisibilidade, que impede a construção de uma comunidade verdadeiramente fraterna. Só através de um compromisso concreto com a justiça e a abertura ao diálogo poderá a Igreja tornar-se um espaço de acolhimento genuíno, fiel à mensagem de Cristo, onde cada pessoa, independentemente da sua identidade, encontra lugar e valor. Importa lembrar que o Espírito do Senhor não conhece barreiras, nem exclusões humanas, estando também presente e atuante na vida destas pessoas. A sua busca por pertença e aceitação é, muitas vezes, sinal de uma profunda experiência espiritual que desafia a própria comunidade a rever os seus modos de acolher e amar. Reconhecer a ação do Espírito em cada pessoa é um convite a uma conversão autêntica, que ultrapassa preconceitos e abraça a diversidade como expressão da riqueza do Corpo de Cristo. O corpo das pessoas trans pode ser compreendido como corpo profético, pois desafia as estruturas normativas e convoca a comunidade a repensar o significado da inclusão e da dignidade. Ao visibilizar experiências que rompem com dualidades tradicionais, estes corpos tornam-se sinais vivos de uma esperança e de uma transformação possível, inspirando a Igreja a uma escuta mais profunda e a uma resposta mais fiel ao Evangelho. São testemunhos de coragem e autenticidade, que interpelam a todos a abraçar a diversidade como expressão do amor divino.

É importante sublinhar que as pessoas trans estão presentes em todas as religiões e tradições espirituais, atravessando fronteiras culturais e geográficas. A sua existência e participação nos diferentes contextos religiosos desafia cada comunidade a alargar o olhar e a reconhecer que a busca pelo sentido, pela transcendência e pela pertença é uma experiência universal, partilhada por todos independentemente da identidade de género. Assim, a presença de pessoas trans em diversas confissões convida ao diálogo inter-religioso e à construção de espaços mais abertos, onde a fé e a autenticidade de cada um possam florescer sem medo de exclusão ou julgamento. Reimaginar o corpo de Cristo à luz da presença das pessoas trans implica reconhecer que a Igreja é chamada a ser um espaço inclusivo, onde todas as experiências humanas contribuem para a riqueza da comunidade. O corpo de Cristo, entendido como comunhão de todos os fiéis, só se torna pleno quando acolhe a diversidade, abraçando cada pessoa na sua singularidade. Assim, ao integrar as vivências e os testemunhos das pessoas trans, a Igreja renova-se e torna-se mais fiel ao Evangelho, que proclama o amor sem condições e o valor inalienável de cada ser humano. Esta reimaginação convida a comunidade cristã a superar as dualidades e exclusões, abrindo-se à possibilidade de um corpo eclesial que reflete verdadeiramente a multiplicidade das identidades. O corpo das pessoas trans, marcado pela coragem e autenticidade, constitui um apelo profético para a transformação, lembrando que a presença do Espírito não se restringe a normas ou categorias pré-estabelecidas. Ao acolher plenamente estes corpos, o Corpo de Cristo torna-se mais inclusivo, mais justo e mais próximo da mensagem libertadora de Jesus, que abraça todos sem exceção.

Os diáconos não podem deixar de estar junto delas, nem a Igreja. A presença e ação dos diáconos é essencial para testemunhar o compromisso com a inclusão e o cuidado pastoral, servindo como pontes de empatia e escuta ativa junto das pessoas trans. A Igreja, por sua vez, deve assumir uma postura aberta e acolhedora, promovendo espaços onde a dignidade e o valor de cada pessoa sejam reconhecidos e celebrados, independentemente da sua identidade. Os diáconos, como servidores e cuidadores da comunidade, têm uma responsabilidade acrescida de estar atentos às necessidades das pessoas trans, promovendo uma pastoral que seja verdadeiramente inclusiva. A sua presença junto destas pessoas deve traduzir-se em gestos concretos de acolhimento, escuta e acompanhamento, para que a sua liberdade, também os libertam, a romper com as barreiras do preconceito e a construir pontes de diálogo. Ao reconhecerem a dignidade e a singularidade das pessoas trans, os diáconos contribuem para uma Igreja mais aberta e justa, onde o Evangelho é vivido com autenticidade e respeito pela diversidade.

Os diáconos podem ser agentes de transformação ao desafiar práticas excludentes e ao incentivar a comunidade a refletir sobre os seus próprios modos de acolher. O seu testemunho de proximidade e empatia inspira outros membros da Igreja a abraçarem uma postura mais compassiva, promovendo ambientes onde as pessoas trans se sintam valorizadas e integradas. O papel dos diáconos é, assim, fundamental para que a Igreja avance no caminho da inclusão, reconhecendo que todos, independentemente da identidade de género, têm lugar no Corpo de Cristo.

Joaquim Armindo


ARMAS DE EXCLUSIÓN

En la revista Concilium, n.º 416, el último número, dedicado a “Teologías del cuerpo: trazado de cartografías”, aparece un artículo titulado “Romper la dualidad corporal: la presencia profética de los cuerpos trans en la Iglesia”, escrito por la teóloga ecofeminista y religiosa Metti Amirtham, SCC, que reflexiona sobre varios ejemplos de mujeres en la Iglesia católica. De las historias que cuenta, destacamos dos.

La primera es la de María, que “es una mujer transgénero y quería convertirse en religiosa para servir al Señor. Por ello, se incorporó a una congregación religiosa después de terminar el bachillerato. Cuando la orden descubrió su identidad sexual alternativa durante los tres años de formación religiosa, la expulsó alegando que no tenía vocación. Ni su familia ni la orden la querían con ellos”.

La segunda historia se desarrolla “en una parroquia de la ciudad de Bangalore, en la India. Una mujer transgénero llamada Priya se sienta todos los domingos en el último banco de la iglesia. Llega siempre antes que la mayoría de las personas. Lleva la cabeza cubierta. Nadie la saluda. Nadie le da el signo de la paz. Durante la Eucaristía, no recibe la comunión y sufre las miradas cautelosas de quienes fingen no verla. Sin embargo, vuelve semana tras semana. ‘Esta es siempre mi iglesia’, dice, ‘aunque no me quiera, sigo siendo parte integrante de ella’”.

Estos ejemplos evidencian cómo, todavía hoy, la exclusión de las personas trans en la Iglesia es una realidad dolorosa que desafía la propia esencia del Evangelio de acogida y amor al prójimo. La negativa a reconocer e integrar plenamente a estas personas en la vida comunitaria revela mecanismos institucionales y culturales que perpetúan el prejuicio y la marginación. Así, es urgente promover un diálogo abierto y compasivo, capaz de derribar barreras y construir verdaderos puentes de inclusión, donde todos sean vistos y respetados en su dignidad única.

Además de estos relatos, es fundamental reconocer que la exclusión no se limita únicamente al espacio litúrgico, sino que también se manifiesta en múltiples niveles de la vida parroquial, incluyendo el acceso a cargos de liderazgo, la participación en actividades pastorales e incluso las relaciones interpersonales. El silencio institucional ante los sufrimientos y las aspiraciones de las personas trans refuerza una cultura de invisibilidad que impide la construcción de una comunidad verdaderamente fraterna.

Solo mediante un compromiso concreto con la justicia y la apertura al diálogo podrá la Iglesia convertirse en un espacio de acogida genuina, fiel al mensaje de Cristo, donde cada persona, independientemente de su identidad, encuentre su lugar y su valor. Conviene recordar que el Espíritu del Señor no conoce barreras ni exclusiones humanas, y que también está presente y actúa en la vida de estas personas. Su búsqueda de pertenencia y aceptación es, muchas veces, signo de una profunda experiencia espiritual que desafía a la propia comunidad a revisar sus maneras de acoger y amar.

Reconocer la acción del Espíritu en cada persona es una invitación a una conversión auténtica que supera los prejuicios y abraza la diversidad como expresión de la riqueza del Cuerpo de Cristo. El cuerpo de las personas trans puede comprenderse como un cuerpo profético, pues desafía las estructuras normativas y convoca a la comunidad a repensar el significado de la inclusión y de la dignidad. Al visibilizar experiencias que rompen con las dualidades tradicionales, estos cuerpos se convierten en signos vivos de una esperanza y de una transformación posible, inspirando a la Iglesia a una escucha más profunda y a una respuesta más fiel al Evangelio. Son testimonios de valentía y autenticidad que interpelan a todos a abrazar la diversidad como expresión del amor divino.

Es importante subrayar que las personas trans están presentes en todas las religiones y tradiciones espirituales, atravesando fronteras culturales y geográficas. Su existencia y participación en los diferentes contextos religiosos desafían a cada comunidad a ampliar su mirada y reconocer que la búsqueda de sentido, de trascendencia y de pertenencia es una experiencia universal, compartida por todos, independientemente de la identidad de género.

Así, la presencia de personas trans en diversas confesiones invita al diálogo interreligioso y a la construcción de espacios más abiertos, donde la fe y la autenticidad de cada persona puedan florecer sin miedo a la exclusión o al juicio.

Reimaginar el Cuerpo de Cristo a la luz de la presencia de las personas trans implica reconocer que la Iglesia está llamada a ser un espacio inclusivo, donde todas las experiencias humanas contribuyan a la riqueza de la comunidad. El Cuerpo de Cristo, entendido como comunión de todos los fieles, solo alcanza su plenitud cuando acoge la diversidad, abrazando a cada persona en su singularidad. Así, al integrar las vivencias y los testimonios de las personas trans, la Iglesia se renueva y se hace más fiel al Evangelio, que proclama el amor sin condiciones y el valor inalienable de cada ser humano.

Esta reimaginación invita a la comunidad cristiana a superar las dualidades y las exclusiones, abriéndose a la posibilidad de un cuerpo eclesial que refleje verdaderamente la multiplicidad de las identidades. El cuerpo de las personas trans, marcado por la valentía y la autenticidad, constituye una llamada profética a la transformación, recordando que la presencia del Espíritu no se limita a normas o categorías preestablecidas. Al acoger plenamente estos cuerpos, el Cuerpo de Cristo se vuelve más inclusivo, más justo y más cercano al mensaje liberador de Jesús, que abraza a todos sin excepción.

Los diáconos no pueden dejar de estar junto a ellas, ni tampoco la Iglesia. La presencia y la acción de los diáconos son esenciales para dar testimonio del compromiso con la inclusión y el cuidado pastoral, actuando como puentes de empatía y escucha activa junto a las personas trans. La Iglesia, por su parte, debe asumir una actitud abierta y acogedora, promoviendo espacios donde la dignidad y el valor de cada persona sean reconocidos y celebrados, independientemente de su identidad.

Los diáconos, como servidores y cuidadores de la comunidad, tienen una responsabilidad especial de estar atentos a las necesidades de las personas trans, promoviendo una pastoral que sea verdaderamente inclusiva. Su presencia junto a estas personas debe traducirse en gestos concretos de acogida, escucha y acompañamiento, para que su libertad también nos libere a nosotros, ayudándonos a romper las barreras del prejuicio y a construir puentes de diálogo.

Al reconocer la dignidad y la singularidad de las personas trans, los diáconos contribuyen a una Iglesia más abierta y justa, donde el Evangelio se vive con autenticidad y respeto por la diversidad.

Los diáconos pueden ser agentes de transformación al cuestionar las prácticas excluyentes y animar a la comunidad a reflexionar sobre sus propias formas de acoger. Su testimonio de cercanía y empatía inspira a otros miembros de la Iglesia a adoptar una actitud más compasiva, promoviendo ambientes donde las personas trans se sientan valoradas e integradas.

El papel de los diáconos es, por tanto, fundamental para que la Iglesia avance por el camino de la inclusión, reconociendo que todos, independientemente de su identidad de género, tienen un lugar en el Cuerpo de Cristo.

Joaquim Armindo