Na defesa da casa comum

NA DEFESA DA CASA COMUM

Por estes dias as igrejas cristãs e as mulheres e homens de boa vontade lembram-se da defesa da Criação, deste jardim que Deus criou, para que nós pudéssemos viver. Claro que olhar para este Éden, protegendo-o, cuidando dele, sendo os seus cuidadores e não lapidadores, sendo jardineiros que olham para toda a Criação, como necessidade imperiosa da sua defesa é, para nós cristãs e cristãos, o cumprimento dos capítulos 1 e 2 do Génesis, e do que Jesus cultivou com a sua vida.

Já em fins dos anos sessenta, do século passado, o Conselho Mundial de Igrejas – onde, agora, a Igreja Católica Romana é observadora -, clamava por um Ecumenismo de defesa da Criação e Bartolomeu I fazia alusões e criaria, mesmo, este movimento de defesa da Criação. Posteriormente a Igreja Católica Romana, e bem!, se associa a este grande movimento de reconciliação com a Natureza. Não só com a excelente encíclica Laudato Si´, mas ainda com “Querida Amazónia”, ou com os duzentos compromissos que o Dicastério para o Desenvolvimento Integral divulgou e de ainda não existem traduções, nem as dioceses se importam com tal.

O equilíbrio da nossa vida faz-se com os seres vivos e até os inertes, não existe outra solução. São eles que nos dão vida e prazer, quando os bem tratamos. Defender a vida selvagem, as árvores e flores, é imperioso. Colocar o ser humano no centro da vida, o antropocentrismo, não atendendo aos vales e florestas, aos montes e biodiversidade, é suicidário. Mas mais que o antropocentrismo – o ser humano no centro -, há, e muitas denominações religiosas o fazem, caminham pelo homocentrismo, isto é, o homem, não é género humano, primeiro, como tantas igrejas cristãs fazem, ofendendo as mulheres, porque lhes retira o dom de Deus, como seres humanos. Há algumas igrejas que até defendem o padrocentrismo ou o bispocentrismo – os padres e os bispos, no centro -, como medida necessária para defesa da humanidade e da Criação. Estes seriam os jardineiros do Éden, relevando para a inferioridade as mulheres, e, também, os homens e as mulheres em função da cor da pele ou, mesmo, da sua condição sexual, balizando o amor e definindo-o de formas de relação estupidificantes.

Defender a Criação e a Terra é ouvir os seus gritos, mas esses gritos também são aqueles lançados pelos que nada têm, nem nada são. Por aquelas e aqueles que não têm estátuas, nem lugares nos “altares”, das igrejas ou da vida. A defesa da Criação é a defesa dos homens e das mulheres e de todos os seres vivos, criados por Deus. Francisco, bispo de Roma, explana muito bem estas ideias na sua encíclica, clamando por uma Ecologia Integral, que diz mesmo ser uma Ecologia Radical. E Ecologia não é igual a Ambiente, contém o Ambiente, mas também a Cultura dos Povos, a Economia e a Coesão Social. Para nós cristãs e cristãos é uma chamada para acudir ao grito dos homens e das mulheres e dos outros seres vivos. Quem fica pela denúncia do plástico nos mares ou pela reutilização dos resíduos, ainda não compreendeu o que de nós se reclama. Não digo que não são ações urgentes, como a defesa dos passaritos ou das begónias. Tudo tem sentido, no entanto, nesta Ecologia Ecuménica, da relação de cada um com Deus, de cada um consigo próprio e de todos com a Natureza, como o Conselho Mundial de Igrejas o proclamou, não podemos deixar de lado os jardineiros. É necessário que, historicamente, compreendamos que não foram as “igrejas evangélicas” que seguiram a igreja católica romana na defesa da Criação, mas foram as igrejas anglicanas, ortodoxas, reformadas, protestantes, luteranas, quem primeiro seguiu o caminho da Ecologia Ecuménica, na sua tríplice dimensão, ou melhor, uma autêntica Ecologia Espiritual.

Não é tirar nenhum valor aos documentos da Igreja Católica Romana, já aqui referidos, antes pelo contrário é reconhecer neles as necessárias referências ecuménicas, de ouvir o grito da nossa Terra Mãe, que está a ser assassinada, e o grito daqueles e daquelas que são os excluídos. Nós defendemos a água, porque defendemos os homens e as mulheres, defendemos a “Economia de Francisco de Assis”, porque defendemos a Criação no seu todo, composta por todos os seres vivos e os inertes que dão ser à vida. Quem não leu, ou se leu colocou na estante, a Laudato Si`, a Querida Amazónia, pode entreter-se a fazer tricot, pensando ser o centro do mundo, mas não é, o centro somos nós filhos e filhas de Deus, e junto a nós todos os seres vivos de quem dependemos.

Olhar para o jardim, sem olhar para o jardineiro, é de quem é míope – sem ofensa para os míopes, dos olhos -, de quem ainda não percebeu que Jesus é o Senhor. Prega-se em determinado tempo, este até ao dia de São Francisco de Assis, para depois esquecer tudo, e, tantas vezes, anunciar defesas da Criação, quando são negócios muito bem elaborados.

Defender a Criação é, pois, estar com o Criador, e fazer da sua vida, um cântico de louvor, nas suas ideias e atitudes, nas suas práticas, a defesa do Jardim e dos Jardineiros, uma Ecologia Radical e Revolucionária, que tantos não querem.

Joaquim Armindo

Diácono – Porto – Portugal

Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental

Pós- Doutorando em Teologia

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