( Palmas – XIV Encontro Diretores e Formadores de Escolas Diaconais)

OS DESAFIOS DE FORMAR DIÁCONOS PERMANENTES

 

Dom Pedro Brito Guimarães, arcebispo de Palmas – TO

 

  1. Uma vocação antiga para uma nova missão: “cuidar das mesas...!”

 

Lucas, após apresentar o retrato falado das Primeiras Comunidades Cristãs (At 2.42-47; 4,32-35), tudo muito idealizado, muito organizado e muito perfeito, como um quadro intocável, sem necessidade de retoques e correções, aparece aqui as primeiras rugas, no espelho liso, deste mesmo retrato (At 6,1-7). Quando lemos este texto, descobrimos algumas coisas que, ao mesmo tempo, são encantadoras e desafiadoras. Lucas coloca este texto dentro de uma moldura, como a de um porta-retrato. No contorno da parte de cima, como uma espécie de cabeçalho, dá-se conta do “aumento do número dos discípulos” (At 6,1). Discípulo aqui é uma nova maneira de designar os cristãos que aderiram a Jesus, que os evangelhos chamam com este nome¹. No coração deste quadro, apresenta a queixa que as viúvas helenistas (judeus de língua grega que se tornaram cristãos na diáspora) não estavam sendo atendidas (At 6,1). No contorno da parte de baixo, fecha amoldura deste mesmo quadro com a seguinte afirmação: “a Palavra crescia e o número dos discípulos se multiplicava” (At 6,7). Com esta espécie de estribilho ou de refrão, nasce o ministério diaconal dentro deste quadro moldurado. Qual dos dois motivos pesou mais na escolha dos sete: o aumento dos discípulos ou o descuido com as mesas das viúvas?

 

Vale ainda dizer que a palavra “diácono”, escrita, no substantivo, neste texto, não aparece. Aqui eles não são chamados de “diáconos”. Mas o serviço dos sete sim. A diaconia (cf. At 21,8; Dt 16,18) de “servir as mesas” (diakonein trapezais), é aqui designada. O número doze simboliza as doze tribos de Israel e o número sete simboliza a universalidade, pois era considerado o “número perfeito”. Com isto conclui-se que “diácono” é o nome de um serviço eclesial e não de um poder ou de uma honra. Um ministério que nasceu da imposição das mãos dos apóstolos (quirotonia). E, por isto, é um ministério apostólico. Isto faz da vocação e do ministério diaconais uma vocação e um mistério apostólico. Receberam a autoridade dos apóstolos de Jesus porque foram ordenados pela imposição de suas mãos (kheirotonia = quirotonia = eleição por alçada das mãos.

Enquanto para os doze Lucas fale em rezar e pregar, para os sete, fala em cuidar das mesas. No entanto, não é isto, de fato, o que acontece. Diz um amigo meu, o padre Luis Mosconi, que um dos critérios para se ler a Bíblia é a desconfiança: o que será que o texto está dizendo? Será que é isto mesmo? O que o texto quis realmente dizer? Desconfiar não tem nada a ver com descrença, mas com teologia e exegese. Estevão tem os mesmos dons do Espírito Santo, opera sinais e prodígios semelhantes as doze e até discute com eles (At 6,8-11; 7,1-53). A missão de Estevão e de Felipe (At 6,8-8,40), logo a seguir, contradiz esta ordem. Ao menos, esses dois diáconos missionários “helenísticos” exercerão missões que se assemelham a dos apóstolos: fazem milagres (At 8,6-7); anunciam a Palavra (At 8,4); e batizam (At 8,38).

Quando lemos as exitosas missões de Estevão (At 6,7-7,60) e de Felipe (At 8,4-23.26-40) – um pela morte e outro pela atividade missionária -, damo-nos conta da importância deste ministério na vida e na missão da Igreja de ontem, de hoje e de sempre. Nestes relatos, três qualidades ou virtudes são destacadas nestes diáconos: “homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria” (At 6,3). O Espírito Santo não depende de nós: é dádiva, graça e dom. A sabedoria, no entanto, depende de nós: é adquirida e cultivada pela formação da mente e do coração. E a boa reputação é decorrência das duas anteriores. Dom, sabedoria e boa reputação juntos, transformaram e fizeram destes homens, testemunhos exemplares do ministério diaconal de ontem, de hoje e do futuro. Estas três qualidades são adquiridas na sala de aula ou são trazidas de casa? São inatas ou adquiridas?

O testemunho, a pregação e a morte de Estevão, em pleno exercício do ministério diaconal, dão a este ministério nascente contornos teológicos imensuráveis. Estevão é arrastado ao Sinédrio como Jesus no Calvário. Como Jesus, exaltado e vitorioso, contemplando o Pai, morre Estevão, contemplando a Jesus. Assim morre o primeiro diácono da história do cristianismo, cognominado de protomártir. É por isto que os diáconos, desde cedo, foram considerados “diáconos dos mistérios de Jesus Cristo” ².

 

 

  1. A arte de formar(-se) diáconos

O que de fato entendemos quando falamos de formação? O que é mesmo formação? O que se forma em uma pessoa? Como se forma uma pessoa? A formação é só intelectual, acadêmica, livresca, teológica, ou é, ao mesmo tempo, existencial e vivencial? Forma-se mais a cabeça ou o coração? A palavra “formar” esconde, semântica e etimologicamente, a ideia de “fórma” e de “fôrma”: colocar o aluno dentro de um molde e de uma forma existentes³: o molde e a forma do diaconado permanente. Formar um diácono permanente hoje requer a mesma seriedade da formação de um presbítero, de um médico, de um engenheiro, de um advogado etc. Mas não pode ser simplesmente a fotocópia de qualquer formação, nem mesmo a de um presbítero. O certo é dizer que toda formação é uma auto-formação. Isto vale para todo tipo de formação, sobretudo para uma pessoa adulta e “já formada”, como comumente é a de um candidato ao diaconado permanente. Conhecemos o princípio formativo, interativo de Paulo Freire: “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. Formar, como se dá com a maiêutica de Sócrates, é ajudar o formando a sair, a vir à luz, a gerar, a parir o que está dentro dele. O formador deve fazer a vez de uma parteira: ajudar o formando a dar a luz.

A formação de um diácono hoje deve ter o mesmo currículo, a mesma metodologia, os mesmos materiais didáticos e as mesmas tessituras da formação de Jesus aos seus discípulos: prática e teórica, acadêmica e vivencial, em casa, na sala de aula, nas ruas, nas estradas, nas sinagogas e nos templos? Os verbos que mais Jesus usava para formar seus discípulos eram: sair, ir, visitar, ensinar, andar, curar, expulsar demônio etc, de madrugada, no caminho, no deserto, na solidão, no descanso, no silêncio, em oração, em contato e no encontro pessoal com ele, Mestre e Senhor. Jesus é o formador por excelência dos seus discípulos missionários de ontem, de hoje e de sempre. Afinal, Ele é o mesmo ontem, hoje e sempre (Hb 13,8). A formação para qualquer ministro ordenado deve ter como modelo o modo de formação de Jesus: a Escola do Evangelho e a Escola da Missão. Os evangelhos reproduzem o que foi, como foi e do que foi a formação de Jesus aos seus discípulos. Os cinco pilares da formação de um diácono deve ser os cinco pilares, elaborados pela UNESCO: aprender a conhecer e a pensar; aprender a fazer; aprender a conviver com os putros; aprender a ser; e aprender a discernir a vontade de Deus.

  

  1. O encantamento missionário, à base da formação

 “Misão é uma grande brincadeira entre Deus e nós, nós e Deus” (Pr 8,29-31). A Igreja tem a missão de despertar o mundo da sua sonolência. Este é o amor do primeiro amor do diaconado permanente. De tudo isto, destacamos que o segredo de qualquer vocação está no encantamento por Jesus e sua Igreja. Não se vive sem encantamento, sem sentido, sem missão. Ninguém segue fielmente, por muito tempo, a alguém por quem não haja paixão e encantamento. O encantamento deve estar na base da formação diaconal. Encantamento tem tudo a ver com sedução, atração e paixão (Jer 20,7-13; Fl 3.7-11). O segredo da vida espiritual de um diácono está no encantamento e na paixão. Quem não se encanta e se apaixona por Jesus, por seu Reino, por sua Palavra, por sua Igreja, por seus pobres e por sua missão, dificilmente se manterá, por muito tempo, na vida diaconal. Jesus não chamor, acompanhou e formou igualmente doze apóstolos? Como explicar que uns progrediram, outros não? Por causa da paixão, do encantamento e do amor por Jesus. Jesus, ao dar o primado a Pedro, não perguntou pelos seus dotes administrativos e de gestor, mas se o amava mais do que os outros (Jo 21,15-19). Somente o amor. E por que Judas traiu Jesus? Não passou pela mesma Ecola do evangelho? Não conviveu com Jesus? Não o teve como formador? Por que traiu a Jesus? Porque não o amou, perdeu o encanto e a atração. Por causa das pequenas rebeldias, das desobediências, das infidelidades, das insensibilidades e das autorreferencialidades, diferentemente dos outros apóstolos.

O segredo então da vida espiritual de um diácono está na capacidade de amar, de se apaixonar e de se reencantar cada dia, de começar sempre de novo e partir, sem oçhar para trás. Quem assim não faz, a chama da vocação se apaga 3 a vida vira rotina. O segredo do seguimento radical de Jesus está no encantamento por sua pessoa e pelo seu projeto de vida. Quem não não parte, na vida espiritual, deste ponto de partida, parte sem base, sem suporte, sem rumo, sem projeto de vida e sem missão.  O segredo então da formação diaconal está em seguir e servir a Jesus, se encantando por Ele. Esta é a motivação que dá sentido a uma verdadeira vocação diaconal. Quem não se encanta ou perdeu o encanto, tudo é motivo para lastimar-se, murmurar e abandonar o barco. Começar, partir e chegar encantado por Jesus e chegar encantado pelo seu Projeto de Vida Portanto, o fundamental, o mais importante na formação de um diácono é encantá-lo e apaixoná-lo por Jesus, pela Igreja e pelas suas missões, no começo, no meio e no fim.

 

 

  1. O que não pode faltar na formação diaconal hoje

Formar diáconos por que e para quê? O diácono permanente é uma vocação e uma missão do passado para o futuro. Sabemos que o ministério diaconal remonta ao tempo dos apóstolos. Portanto, é um dos ministérios apostólicos. Existem muitos textos bíblicos que testemunham e confirmam a sua existência, a sua origem e a sua prática no cristianismo nascente (At 6,1-6; 1Tm 3,8-13; 2Ts 3,8ss; Fl 1,1).

Os sinais e os prodígios da vocação e da missão dos primeiros diáconos, seja de Estevão, seja de Filipe, se dão no limiar, na encruzilhada e no entrono das fronteiras existenciais e geográficas das diaconias hodiernas: territorial, setorial e ambiental£. Desta forma, os dois devem servir de medidas e de modelos, programáticos e paradigmáticos, para a formação e a missão do ministério diaconal nas novas “fronteiras”, nos novos “areópagos” e nos novos “pátios dos gentios”. Estas são as mesas das viúvas que os diáconos devem servir. Ontem como hoje, há muitos “eunucos” que cruzam e percorrem as estradas, as praças, os campos e as cidades, a procura de quem os expliquem as Escrituras e os batizem. A estrada que desce de Jerusalém à Gaza ainda está deserta. A carruagem ainda está à espera de quem dela se aproxime. Há, portanto, ainda um longo caminho a percorrer no campo da diaconia.

Hoje quando afirmamos que o diaconado foi o ministério das periferias e fronteiras do passado, estamos afirmando também que, no presente e no futuro, “Os diáconos permanentes são ordenados também para acompanhar a formação de novas comunidade eclesiais, especialmente nas fronteiras geográficas e culturais”5. Quando refletimos sobre algo desta natureza, recordamos das palavras do papa Francisco, especificamente sobre a formação presbiteral, dirigidas aos bispos brasileiros, com destaque aos bispos amazônicos, como eu: “Eu gostaria de acrescentar que deveria ser mais incentivada e relançada a obra da Igreja. Servem formadores qualificados especialmente professores de teologia, para consolidar os resultados alcançados no campo da formação de um clero autóctone, inclusive para se ter sacerdotes adaptados às condições locais e consolidar, por assim dizer, o ‘rosto amazônico’ da Igreja”6. E acrescentou: “uma Igreja como a que está no Brasil, que é um grande mosaico de ladrilhos, de imagens, de formas, de problemas, de desafios, mas que, por isso mesmo, é uma enorme riqueza. A Igreja não é jamais uniformidade, mas diversidades que se harmonizam na unidade. E isso é valido em toda a realidade eclesial”7. E finalmente, disse: “Arrisquem! Não tenham medo de arriscar. Se vocês não se arriscarem, já estarão errados”8.

Que leitura e aplicação devemos fazer destas sábias palavras do papa Francisco ppara a formação do diaconado permanente na Igreja do Brasil?

Primeiro, “isto é válido em toda a realidade eclesial: a Igreja, como um grande mosaico de ladrilhos, de imagens, de formas, de problemas e de desafios, que se harmonizam na unidade”. Bem que se poderia justiçar a necessidade da harmonia entre os ministérios ordenados: o ministério diaconal, ao lado do presbiteral, nas comunidades eclesiais, especialmente naquelas não satisfatoriamente atendidas pastoralmente.

Segundo, “um clero (padre e diácono) autóctone, adaptados às condições locais, como rosto amazônico”. Se até o ministério presbiteral, que sempre teve uma configuração teológica mais complexa, é possível existir autoctamennte e com rosto incuturado, o que não dizer do diaconado permanente que tem uma configuração teológica bem mais simples?

Terceiro, “arrisquem! Se não arriscarem já estão errados”. Estamos incorrendo num erro, pois, não arriscamos e nem ousamos. Não existe nada mais capaz de derrubar as barreiras de estruturas caducas, que já não mais evangelizam, do que a missão; Nas curvas dos caminhos das mudanças de épocas, a rigor, a Igreja nem precisaria de diáconos missionários. Bataria ter missionários diáconos.

Mas, onde se encontram estas novas periferias para o exercício missionário do diaconado permanente? No mundo das mass media e das redes sociais, nos aglomerados, nos condomínios fechados, nos hospitais, nos asilos, nos abrigos, nos lugares de lazer e de turismo, nas prisões, no mundo da ecologia e do cuidado do meio ambiente e, sobretudo, nos corações das pessoas. “A missão da Igreja é para o coração das pessoas”9. “A missão não é apenas uma questão de territórios geográficos, mas de povos, culturas e pessoas individuais, precisamente porque as fronteiras de fé não ultrapassam somente lugares e tradições humanas, mas o coração de cada homem e de cada mulher”10.

Portanto, neste Encontro de Formadores de Escolas Diaconais do brasil, se faz necessário, revalorizar ainda mais a vocação e a missão, a graça e o carisma do diaconado permanente. Não mais t\ê-lo para enfeitar altar ou substituir padre, mas para a criação e a edificação da Igreja nas novas periferias e fronteiras. Para tanto, é preciso que as sementes deste precioso dom encontrem terrenos favoráveis, a fim de que possam germinar e produzir frutos. Estes terrenos devem ser adubados e fertilizados com o corretivo de uma boa formação diaconal. Sem isto, é como colocar remendo novo em pano velho, vinho novo em odre velho (Lc 5,36-37). Foi este o terreno que levou a Igreja primitiva a escolher para o diaconado homens de boa reputação, repletos do Espírito Santo e de sabedoria. É neste sentido que afirmamos que o ministério diaconal é o ministério do passado para o futuro: um pequeno, mas eficaz sinal de esperança para a profecia de uma Igreja, comunidade de comunidades, missionária, samaritana, misericordiosa, a serviço da vida dos mais indefesos.

 

 

  1. Um breve |Manual de \Instrução: cinco ousadias para a formação diaconal

Quando compramos um eletrodoméstico, um eletrônico, um medicamento, outros objetos e bens duráveis, vem junto ao produto, embutido no preço, um Manual de Instrução. Quanto mais lemos tais instruções, mais proveito tiramos do produto adquirido e do investimento feito. Para concluir, apresento este breve Manual de Instrução para a Formação de Diáconos:

  1. Formar diáconos para transformar água em vinho dos casamentos falidos, como Jesus nas bodas de Caná (Jo 2,1-11): apóstolos das famílias;

 

  1. Formar diáconos para caminhar e levar esperança aos desanimados, como Jesus com os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35): apóstolos dos desanimados e afastados;

 

  1. Formar diáconos para uma “Ihgreja da Toalha”, ao invés de para uma “Igreja da Estola”, como Jesus no lava-pés (Jo 13,1-15). A toalha foi o primeiro e único paramento que Jesus usou (Don Tonino Bello): apóstolos da toalha (mesas), da caridade e do serviço humilde e fraterno;

 

 

  1. Formar diáconos para ajudar os jovens, como o Projeto “Floresta que Cresce”: “Uma árvore que cai faz mais barulho do que ima floresta que cresce”: apóstolo das juventudes;

 

  1. Formar diáconos para o “Pátio dos Gentios”, como o cardeal Gianfranco Ravasi: apóstolos dos descrentes ou não crentes.

 

 

BIBIOGRAFIA|:

  • Cf Bíblia de Jerusalém, letras “a”, ‘h” e “i” das notas de rodapé.
  • Santo |Inácio de Antioquia e São Policarpo.
  • Libânio, João Batista, A arte de formar-se, Loyola,, 2001, 11.
  • CNBB, Diretrizes para o Diaconado Permanente da \Igreja no Brasil. Frormação, Vida e Ministério, Documento 96, Edições CNBB, números 106-108.
  • Documento de Aparecida, Edições CNBB, número 205.
  • Papa Francisco, Discurso ao episcopado brasileiro, Rio de Janeiro, 27 de julho de 2013.
  • Dom Alberto Taveira Corrêa, Zenit, 01 de agosto de 2013.
  • Papa João Paulo II, Redemptoris Missio, 62.
  • Papa Francisco.