O DIACONO NÃO QUER PODER

O DIACONO NÃO QUER PODER

O diácono não tem, nem pode ter, qualquer espécie de poder. O poder corrompe, como podemos escutar dos livros bíblicos. Quem tem poder não exerce o serviço, mas amortalha-o com a palavra de “pastoral”, como sinal que está ao serviço da Igreja e de Jesus. Mas isso não transmite a verdade, muito menos a Verdade que Jesus proclamou. O rei Salomão, como podemos ler e reler, tinha muito poder e talvez em muitos casos justos, mas ninguém hoje ignora as suas mil concubinas, uma das quais deu origem ao “Cântico dos Cânticos”, que é uma peça erótica libertadora. Talvez a apelidasse a essa tentativa de “escravatura sexual” de “pastoral”, mas tudo seria menos o Amor e Misericórdia de Jesus. Também hoje existem muitos e muitos que pensam que a “pastoral” é o rigoroso cumprimento de leis, nem que beneficiem os mais poderosos. A “pastoral” de Jesus nunca foi um “poder” do exercício da sua Missão; os poderes são efémeros e não traduzem qualquer mensagem do Jesus morto e ressurreto. Mesmo que tais poderes sejam exercidos por diáconos, presbíteros ou bispos, são sempre ao serviço de si e das suas próprias sombras. Os poderes discricionários ou não-discricionários, por mais que se tente não são “pastorais”, mas ditaduras exercidas sobre os mais débeis, os mais fracos, aqueles que menos têm, voz ou vez. Não ouvir outras vozes, escondendo-se nas vestes clericais, é um disfarce que não tem sentido em qualquer bem-aventurança do sermão do monte. Não ouvir o clamor, ajustando-se a uma pretensa “pastoral”, é criminosamente abafar o grito daquele Jesus, o Cristo, rebelde e insubmisso.

Nesta época natalícia – assim como noutras ocasiões, mas nesta muito mais -, há um exercício de poder chamado Caridade. Parece – é !-, uma necessidade que tantos têm para dizer que possuem poder e esse poder se transforma em compaixão. Por isso dão, mas com o poder de “dar”, aquilo que nem é deles. Mas possuem esta “bondade” de “dar”, de escolher o que se dá e quem se há de dar. Para que os outros saibam que se alguma coisa lhes é doado é pela compaixão de quem tem “poder”. Não estou a dizer que não se dê de comer a quem tem fome, e de beber a quem tem sede, estou a refletir sobre o “comando” destas operações, bem organizadas e preparadas, para que muitos os reverenciem, e além de reverendos ou reverendíssimos, os honrem pelas “pastorais” empregadas.

O diácono no exercício da sua doação à caridade não pode ser, nem estar aliado -mesmo calando-se -, com atitudes e ações que desvirtuam a essência da Evangelização. Mesmo correndo o risco de ser “anti pastoral”, não pode calar a subserviência de muitos à custa da “singeleza pastoral” de uns tantos, mesmo que sentados em tronos glorificadores, que só transmitem a certeza de estarmos com ditadores no exercício de poderes, ditos “ordenados”. O que parece, é, e quando os poderosos pela palavra ou ação amedrontam com falhas de, dizem, “caridosas” mãos entranhadas num profundo sentimento de cooperação com os mais frágeis, nem sequer estão alojados, se não no esconderijo erigido pelos seus seguidores, e não pelo filho do carpinteiro de Nazaré, mas pela falácia de programas ditos “caridade”. A Caridade não tem definição, nem conseguimos atingir o que é e será. Paulo de Tarso adverte que das três grandes virtudes a Fé, a Esperança e a Caridade, só a Caridade não acabará jamais, nem no Reino onde mana leite e mel.

Por isso o diácono não pode ter o “poder da caridade”, nem exercê-lo, nem apelidá-lo de “pastoral”, porque o pastor dá a vida pelas suas ovelhas, e quando uma sai do rebanho corre atrás dela, com humildade e não com discursos evasivos de quem tudo tem, até o poder do exercício da Caridade.

O diácono instituído para servir a Caridade, não é o sujeito do exercício do poder de a exercer, de submeter os outros a esse exercício de poder, mesmo que lhe chamem de “pastoral”. Quem ofende a Caridade, ofende Cristo pregado na cruz. Quem a qualquer título exercita a Caridade como “poder”, não entra nunca pelo “buraco da agulha”, por muito que esse buraco seja grande.
Saibamos, então, servir sem ter poderes, nem ser poderes.

Joaquim Armindo
Diácono – Portugal

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