O diácono e o setor da caridade

Lemos no Livro dos Atos dos Apóstolos que a determinada altura os apóstolos, para melhor se entregarem à oração e à Palavra, decidiram nomear sete dos discípulos para o serviço das “mesas”, ou seja, da Caridade. A nascente Igreja com um crescimento inusitado de aderentes não poderia estar nas mãos dos doze em todo o serviço. Aquilo que mais os preocupava era a Caridade. E aí nasceram os primeiros diáconos, curiosamente não sendo judeus. Sabemos também que entre a Fé, a Esperança e a Caridade, só esta é perene, isto é, dura para sempre. Para que o serviço da Caridade não se perdesse foram necessários “servidores”, que se ocupassem com os excluídos da época.

A palavra “setor” é um aspeto particular de um conjunto de atividades, uma esfera ou ramo de atividades, um âmbito, por exemplo, o setor social ou setor financeiro. “Caridade” – em termos de dicionário-, significa conduzir ao amor de Deus e ao semelhante, um ato do qual se beneficia o próximo, mas mais do que isso, é “dar a esmola”. Nesta leitura simplista “Caridade” não poderá ser “um setor”, porque envolve toda a vida cristã, das cristãs e dos cristãos. Também costuma-se referir como “socio-caritativa”, ligando o social à “Caridade”. Ora, “social” como adjetivo, é relativo ao substantivo “sociedade”, por isso é o “concernente à amizade e união entre várias pessoas”. Expondo assim estas questões não existe lugar para o “setor social” ou o “socio-caritativo”. A Caridade também não é sinonimo de Amor, vai além disso, a Caridade é entregar-se pelo outro. A Caridade não é filantropismo – embora seja boa esta preocupação, isso não é Caridade, às vezes torna-se “benfeitorismo”, ou seja, expor-se socialmente para receber os encómios dum povo que necessita de comer e beber, de teto e saúde, de educação.

O papa Francisco chama “desenvolvimento integral humano”, o ser humano em “ecologia”, diálogo permanente. O desenvolvimento integral humano – que não só do homem-, afeta os principais desígnios humanos, se é económico, também é ambiental, e se é social, também é cultural. Se é dos seres vivos, também o é dos abióticos, afinal de toda a Criação. Há quem já refira uma outra dimensão ecológica: a espacial. E nada disto se consegue obter sem em tudo – para nós, cristãs e cristãos -, a Espiritualidade de Jesus.

A Caridade não é um “setor”, reduzido a uma porção do nosso povo, mas é a substantividade de toda a nossa vida. A Caridade não é “esmolar”, como quem necessita de quem precisa para ser cristão. A Caridade não é na Igreja algo que se possa alcunhar de particular, mas tem sentido em toda a vida. A Caridade não é ser “benfeitor”, mas comer do mesmo pão com os outros, parti-lo, como Jesus fez na última ceia. A Caridade é conduzir ao Amor de Deus, mostrá-lo, vivê-lo, nas mais profundas entranhas da vida.

Assim se faz diaconia, mostrando que existe pobreza, porque o ambiente não é defendido, mostrando que o pobre também o é, porque falta-lhe a cultura. O diácono será aquele (a), que com o sacramento da Graça que lhe foi conferida, é capaz de espalhar o pão, vestir os nus, dignificar os seres vivos e os abióticos. O Diácono é aquela faceta da Igreja que sabe defender o ambiente, o cosmos, e é capaz de espelhar a Cultura dos povos.
O Diácono louva a Deus nas profundezas do seu querer servir o Senhor, a quem doou a sua vida. Tendo a perceção profunda do que é viver em família, com sua mulher e filhos, percebe o quanto Deus lhe oferece, para viver a Caridade e o Amor. O Diácono não se sujeita a esquemas, nem é sujeito de alguém, mas unicamente de Deus. Louvando o Senhor – na Liturgia -, proclamando a Palavra aos sete ventos, sabe que a Caridade é sempre Amor, e conduz os seres vivos às luminárias dos céus.

O Diácono é por si só, no sacramento da sua ordenação, a vivência com os outros e o Outro, por isso mesmo é sempre um insubmisso, um imoral, na sociedade que quer domar a moral.

Joaquim Armindo
Diácono da Diocese do Porto – Portugal

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