O Diaconado Permanente no Patriarcado de Lisboa (Portugal): “Uma mais-valia para a evangelização”

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São quatro os diáconos permanentes que vão ser ordenados este Domingo, 2 de julho, nos Jerónimos. Depois de alguns anos de reflexão, no Patriarcado de Lisboa, sobre este ministério, o responsável pela formação dos candidatos ao Diaconado Permanente, cónego José Miguel Pereira, apresenta o percurso de formação até à ordenação diaconal e destaca a importância deste ministério.

 

Os diáconos permanentes “são importantes” para o Patriarcado de Lisboa, considera ao Jornal VOZ DA VERDADE o coordenador da seleção e formação dos candidatos ao Diaconado Permanente na diocese, cónego José Miguel Pereira. “Fazendo parte de um ministério ordenado, e podendo trazer aquelas configurações próprias do ministério, até em termos das graças oferecidas – seja até em termos de alguma palavra mais ‘autorizada’, digamos assim, daquilo que é a proposta da vida da Igreja para os fiéis e para o mundo –, o Diaconado Permanente tem também a possibilidade de estar mais envolvido e introduzido em alguns campos da vida pastoral e da vida humana, onde muitas vezes o ministério ordenado dos presbíteros não chega, como seja a vida profissional, a vida familiar ou em algumas áreas da vida universitária ou hospitalar, por exemplo”, justifica este sacerdote, sublinhando que os diáconos permanentes podem ser “uma mais-valia para a evangelização e para a tentativa de fazer pontes e ir às periferias”.

 

Repensar o perfil dos candidatos

Estávamos no ano de 2011, ainda no tempo de D. José Policarpo, então Cardeal-Patriarca de Lisboa, quando foram publicadas as novas ‘Normas de seleção e formação dos aspirantes e candidatos ao Diaconado Permanente no Patriarcado de Lisboa’. Uns anos antes, tinham sido suspensas as admissões de novos candidatos, de forma a ser feita uma reflexão sobre este ministério na Igreja Diocesana. “Havia que repensar o perfil dos candidatos. Que fossem sobretudo mais na linha desta nova evangelização, portanto gente com aptidões para poder ser, nos seus meios sociais, familiares e profissionais uma presença do ministério, e não serem apenas pessoas que acabassem por esgotar o exercício do ministério na liturgia”, explica o cónego José Miguel. Segundo este sacerdote, “durante cerca de quatro anos foi feita uma auscultação aos próprios diáconos, aos párocos que tinham diáconos a trabalhar consigo e, a partir desses elementos, foi elaborado um esboço das normas, que foi depois aprovado pelo senhor Patriarca”.

 

Aspirantado

Em fevereiro-março de cada ano, o cónego José Miguel, que é também reitor do Seminário dos Olivais, escreve uma carta aos párocos da diocese “a lembrá-los da possibilidade de apresentarem possíveis aspirantes à formação, tendo presentes os critérios e elementos a ter em conta no perfil dos candidatos”. As respostas dos párocos devem acontecer, por norma, até final do mês de maio, para permitir que “em junho e julho seja feita uma primeira conversa com os apresentados, para ver se se confirma ou não o início da formação”. “Com aqueles que são confirmados no processo, é-lhes proposto que iniciem um primeiro ano, chamado de ‘Aspirantado’, que tem um conjunto de módulos de formação ligados à natureza do diaconado, a teologia do diaconado, a história e evolução do diaconado, as motivações da restauração do diaconado permanente no Concílio Vaticano II, a relação entre o sacramento da Ordem e o sacramento do Matrimónio, a espiritualidade do diácono e a liturgia das horas na vida do diácono. São módulos introdutórios que permitem aos aspirantes conhecer o horizonte da possível vocação que os pode esperar, às famílias – as esposas, sobretudo, porque a maior parte dos que são apresentados são casados – permite que possam participar e acompanhar e, a nós, equipa formadora, permite-nos conhecer melhor o aspirante”, expõe o coordenador da seleção e formação dos candidatos ao Diaconado Permanente na diocese, referindo que “estes 12 módulos de formação acontecem uma vez por mês, aos sábados de manhã, no Seminários dos Olivais, começando com Laudes e terminando com Missa, juntamente com os que estão em formação mais adiantada”. “Isso permite que se vá criando também uma pequena comunidade de formação”, salienta. O primeiro ano de formação ao Diaconado Permanente é ainda composto por “alguns momentos de espiritualidade”, como o fim-de-semana de retiro no Advento, o fim-de-semana de oração e exercícios espirituais com as esposas e os que já são diáconos, na Oitava da Páscoa. “Como a maioria dos aspirantes não tem diretor espiritual, é-lhes ainda proposto, neste primeiro ano, que se iniciem à direção espiritual. Além disso, vou tendo conversas pessoais com cada um, para ir aferindo como anda o percurso, dificuldades e facilidades”, acrescenta o cónego José Miguel Pereira.

 

Formação teológica

Terminado este primeiro ano de discernimento, há uma conversa com os aspirantes. “É feito um parecer dos próprios e da equipa de formação e seleção e, se as coisas estiverem num sentido de avançar, é proposto ao senhor Patriarca, se achar por bem, que os admita entre os candidatos às ordens sacras. Fazem o rito de admissão e passam à etapa seguinte, que é a de ‘Candidatos’”, explica o cónego José Miguel. Esta segunda fase é composta por três anos de formação teológica, mais um ‘Ano Pastoral’. “A formação teológica acontece praticamente todos os sábados – há apenas um sábado livre por mês –, durante todo o dia. Conforme vem no Diretório, são aulas de Teologia Dogmática, História da Igreja, Moral, Liturgia. No fundo, o núcleo base da Teologia, à semelhança do que é o curso de Mestrado em Teologia mas muito mais mitigado, porque são menos anos, mas que lhes dá algum substrato sólido em termos de pensar estas questões do mistério da fé, do anúncio e do ministério”, conta este sacerdote. Ao mesmo tempo, os candidatos a diáconos permanentes “continuam a ter a direção espiritual, continuam a ter os ritmos de reflexão e de retiro, aprofundam a pequena comunidade formativa e há um acompanhamento às esposas”. É também ao longo destes três anos que acontecem as instituições em ministérios: leitorado e acolitado. “Tudo isto pontuado com conversas que vou tendo com eles, no sentido de irmos aferindo o discernimento que vão fazendo”, observa o cónego José Miguel Pereira, destacando ainda “o papel dos párocos no acompanhamento pastoral”. “O ideal é que os candidatos possam passar pelas várias áreas das diaconias que amanhã vão exercer, seja da Palavra, da liturgia ou da caridade”, destaca.

Com as novas ‘Normas de seleção e formação dos aspirantes e candidatos ao Diaconado Permanente no Patriarcado de Lisboa’, publicadas há seis anos, foi inaugurado o chamado ‘Ano Pastoral’. “No quinto e último ano de formação, voltamos a ter uma configuração mais semelhante ao primeiro ano, que decorre aos sábados de manhã, com 20 módulos: cinco de homilética, cinco ligados à diaconia da Palavra, cinco ligados à diaconia da liturgia e cinco ligados à diaconia da caridade. É uma espécie de teologia prática, com possibilidade de exercício prático daquilo que amanhã será a presidência litúrgica, o acompanhamento de pais e padrinhos para o Batismo ou de noivos para o Matrimónio, como celebrar e como presidir à celebração, como orientar algum retiro, conferência ou pregação, ou nas áreas de assistência como a Pastoral da Saúde, a Pastoral Prisional ou a Pastoral Sociocaritativa”, refere este responsável.

 

16 leigos em formação

O cónego José Miguel lembra ainda que “todos os momentos de assumir ministérios são momentos de escrutínio, de avaliação, de discernimento e de confirmação”. “Eu insisto muito com eles para que estes momentos não sejam apenas passos, mas para que sejam ferramentas. Ou seja, que a entrada num determinado ministério os torne também uma ferramenta em termos de configuração espiritual e interior, e em termos de exercício pastoral mais orientado àquele ministério para ir alargando e aprofundando alguns elementos de identificação com Cristo servo, com Cristo que se fez o último de todos, com Cristo que preside pelo serviço e não pelo mando”, deseja, apontando que, uma vez completos todos os cinco anos de formação, os candidatos “fazem um requerimento a pedir a ordenação”.

Atualmente, o Patriarcado de Lisboa tem 16 leigos em formação para o Diaconado Permanente: quatro que terminaram o ‘Ano Pastoral’ e vão ser ordenados diáconos permanentes este Domingo; seis terminaram o 2º ano de Teologia; três acabaram o 1º ano de Teologia; e quatro terminaram o ‘Aspirantado’.

 

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António Rebelo

62 anos

Paróquia da Benedita

“É um momento muito importante na minha vida. É receber um dom para pôr ao serviço dos outros. Este tempo de preparação foi vivido sempre na perspetiva de ver o que é que Deus queria, realmente, de mim, se era este o caminho. À medida que avançava, a perceção e a certeza de que ‘sim’, que era para avançar mesmo. Enquanto diácono, a Igreja de Lisboa pode esperar aquilo que eu conseguir dar, aquilo que Deus me conseguir dar, porque mais do que a própria pessoa será o Espirito Santo que irá inspirar.”

 

Emanuel Sousa

47 anos

Paróquia de Algueirão – Mem Martins – Mercês

“Esta ordenação significa um passo importante da minha vida. É um chamamento que foi, inicialmente, inesperado, e que foi nascendo ao longo deste tempo, desta caminhada, e que foi fazendo parte de mim. É um passo muito importante, que eu irei dar juntamente com a minha família, porque isto é partilhado com a família – dar espaço à comunidade, abdicando de mim e da família, por uma causa maior, que é o chamamento a que Jesus Cristo nos faz, nesta entrega pelos outros.”

 

Rui Silva

50 anos

Paróquia de Paço de Arcos

“Este momento da minha ordenação significa uma grande alegria, sobretudo porque posso começar a servir a Deus de uma outra forma. Estar livre para servir, pela forma que o Senhor quiser, onde Ele quiser, da maneira que quiser, como ministro ordenado. A comunidade pode esperar de mim duas coisas: amar e servir, dedicando-me aos outros da forma que eles me pedirem e me solicitarem.”

 

Vasco d’Avillez

69 anos

Unidade Pastoral de Sintra

“A ordenação significa agradecer a vida que tem sido fantástica, até aqui, e significa pôr-me mais à disposição da comunidade, sobretudo das paróquias de Sintra que precisam imenso de quem se interesse mais por ela – os que lá estão interessam-se imenso, mas não chegam. A comunidade pode esperar cem por cento de atenção às necessidades das pessoas, sobretudo dos mais velhos e dos que estão mais longe e precisam de apoio.”

 

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Panorama atual do Diaconado Permanente no Patriarcado de Lisboa

Desde 1988, ano das primeiras ordenações diaconais na diocese, no caso sete, o colégio dos diáconos permanentes do Patriarcado soma 100 elementos até aos dias de hoje. Segundo os dados e estatísticas, enviados ao Jornal VOZ DA VERDADE pelo delegado e coordenador dos Diáconos Permanentes do Patriarcado de Lisboa, diácono Armando Dilão, 98 foram ordenados no Patriarcado e 2 ordenados no estrangeiro. No exercício do ministério estão atualmente 82 diáconos permanentes (8 jubilados), passaram ao estado laical 2 e faleceram 16. A média de idades é de 67 anos (entre os 35 e os 49 anos, há 5 diáconos; dos 50 aos 59, são 18; dos 60 aos 69 anos, existem 26 diáconos; dos 70 aos 79, há 28 diáconos; enquanto que entre os 80 e os 89 anos, há 5 diáconos permanentes). A nível de colocação, há 25 diáconos em paróquias de Lisboa, 38 no Termo, 17 no Oeste, estando 2 diáconos permanentes fora da diocese. Assim, a Vigararia de Lisboa I tem 3 diáconos, a de Lisboa II 6 e as de Lisboa III e IV 8 cada uma. Nas Vigararias de Alenquer, Mafra e de Alcobaça-Nazaré estão 4 diáconos em cada, enquanto que na da Amadora existem 9, na de Cascais, de Sacavém e da Lourinhã há 1 diácono em cada uma, na de Loures-Odivelas, em Vila Franca de Xira-Azambuja e em Caldas da Rainha-Peniche há 3, na de Oeiras 5 e na Vigararia de Sintra existem 12 diáconos permanentes.

D. Joaquim Mendes, Bispo Auxiliar de Lisboa, é quem acompanha, na diocese, os diáconos permanentes e, ao Jornal VOZ DA VERDADE, lembra a missão de servir dos diáconos. “O diácono permanente é, na Igreja, ícone de Cristo Servo, ajudando-a a ser sinal visível da diaconia de Cristo, que “não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20, 27)”, destaca D. Joaquim Mendes.

texto por Diogo Paiva Brandão; fotos por Filipe Teixeira
Tomado de: http://www.vozdaverdade.org

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