Isolamento social e suas consequências

* Diácono José Bezerra de Araújo – Arquidiocese de Natal (RN)

O ser humano vive em espaços que lhe são próprios. Nos primeiros dias e meses de vida, tendo nascido com condições normais de saúde, vive no lar, junto com os pais e outros parentes, se os tiver. Depois, com o decorrer dos anos, começa a frequentar outros espaços, entre os quais os de estudos, de lazer, de práticas esportivas e, mais recentemente, os virtuais, através das mais diversas mídias eletrônicas. É nesses espaços todos que ele inicia uma série de relações, também as mais diversas, como a construção de novas amizades, o aprendizado de uma profissão, o discernimento vocacional para o trabalho, para a família ou para a religião. Enfim, nesses espaços o ser humano constrói uma rede que o interliga com pessoas de diversos lugares e com o Mundo, em diferentes instâncias de relacionamentos.

Mas a criatura humana não está imune aos mais diversos revezes, inclusive os que o ferem não só no corpo, mas também nas finanças, nos sentimentos, na fé, na razão de ser da vida e na saúde física e mental. Para enfrentar esses revezes, necessita de equilíbrio monetário, de uma fé bem alicerçada, de saúde física, mental e emocional e de uma família também equilibrada e sadia, em todos os sentidos. Sem estes valores essenciais, será bem mais difícil superar as dificuldades que se lhe apresentarem em toda a sua existência na face da Terra.

Ironicamente, nestes tempos de Pandemia provocada por um ser invisível de nome Coronavírus, todos os seres humanos da face da Terra estão sendo provocados a testar todas as suas habilidades de convivência, seja nos espaços, nas relações, na fé e crenças, seja no seio familiar, sob pena de contrair a doença, que é letal. Confrontam-se com o fato de terem que optar entre contrair a moléstia e assumir o risco de morte, ou de terem que se isolar, passar mais tempo no lar com a família e menos tempo com amigos e amigas do trabalho e dos espaços de lazer.

Para tomar uma decisão equilibrada, necessário se faz acreditar na Ciência, nos cientistas e nas autoridades dos organismos de saúde do Mundo, do País, dos Estados e dos Municípios, que dizem ser real e letal a presença deste ser invisível, o Coronavírus, já em vários continentes do Globo Terrestre. E a decisão mais equilibrada, diante da presença real e letal deste vírus, já cientificamente comprovada, é o isolamento ou confinamento social. Em outras palavras, ficar confinado no reduzido espaço da própria residência, com a família, abdicar da prática de esportes, do exercício da profissão no local de trabalho (empresa, por exemplo), trabalhar em “home office”, quando possível, e se “encher” de paciência para passar horas, dias, e talvez até meses dentro de casa, tudo para salvar a própria vida e a dos familiares!

Mas as consequências da Pandemia não se limitam ao simples confinamento. Há pessoas que não têm o hábito de permanecer muito tempo com a família, e as que moram sozinhas, e, nesta ocasião de confinamento social, manifestam crises de ansiedade, angústia, fobia por causa da redução dos espaços que tinham antes e buscam descarregar tudo isso nos familiares, ou na ingestão exagerada de alimentos, ou no acesso excessivo de mídias eletrônicas, ou no desenvolvimento de uma depressão e até em atitudes grosseiras e violentas, que antes não tinham.

Nada me espanta mais do que o fato de uma dessas pessoas ter família e se estressar, se angustiar, ficar ansiosa e depressiva, por estar confinada com a própria família em seu próprio lar. Questiono-me: para essa pessoa, não é bom ficar com a família? E por que não o é? Estar com a família não faz essa pessoa mais feliz? Faço estes questionamentos porque, desde que me entendi de gente, sempre me senti feliz convivendo com meus familiares, sejam pais, irmãos, irmãs, primos, primas, tios, tias, sogro, sogra, cunhados e cunhadas… Com meus familiares sempre me senti bem, sempre me senti seguro, sempre me senti feliz. Logo, neste confinamento social, me sinto ainda mais feliz por estar trabalhando, em “home office”, ao lado de quem mais gosto, de quem mais amo e com os quais a vida se torna mais saudável, mais amena e mais prazerosa.

Às pessoas que não se sentem bem ao lado dos familiares, dentro do próprio lar, neste período de confinamento social, sugiro questionarem-se e tentarem descobrir o porquê de se sentirem angustiadas, depressivas, fóbicas, ansiosas por algo que talvez nem saibam, só por estarem junto da família. Algo falta ou sobra a estas pessoas ou a estas famílias… Neste caso, o “inimigo” não é somente o “bichinho” invisível e letal que está ceifando muitas vidas, Mundo afora. Há um outro “inimigo”, também invisível, dentro desse lar ou dentro de quem ali vive, e que está incomodando, angustiando a vida destas pessoas. É necessário descobrir o que é para, em se tratando de falta, conseguir; e em se tratando de sobra, jogara fora. Ninguém se sente bem quando lhe falta algo ou quando algo ali o incomoda!

* Diácono José Bezerra de Araújo é jornalista, membro da Equipe Nacional de Assessoria de Comunicação – ENAC da CND; assessor de imprensa da Arquidiocese de Natal.

FOnte; cnd.org.br

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