DOS DOIS PAPAS AO CASAMENTO

DOS DOIS PAPAS AO CASAMENTO

O cineasta brasileiro Fernando Meirelles brinda-nos com um filme de ficção – e que pode ter muito de verdade -, chamado “Os dois papas”. O filme passa-se nos jardins do vaticano e é um diálogo entre dois homens e duas formas de ser Igreja. Apesar do papa Bento XVI a determinada altura da sua eleição não ter cumprimentado o cardeal Jorge Mario Bergoglio, ambos de se reconciliam em conversa mais parecida como “uma confissão” e no fim uma “absolvição”. Mostra o filme, segundo o teólogo Leonardo Boff, que estamos perante dois seres humanos, com seus lados positivos e negativos. Um Ratzinger com a sua indulgência e clemência com a pedofilia, não pensando nas vítimas, mas em salvaguardar a imagem de instituição religiosa, seguindo uma ortodoxia baseada na Santa Doutrina. Sempre pronto a “castigar” quem não a seguisse de acordo com o seu pensamento, diz Boff, um dos que foi “calado”, embora tivesse em vários tempos defendido ideias inovadoras. Outro Bergoglio, que não se importa de beijar ou abraçar as mulheres, com uma personalidade primaveril. Defensor da sinodalidade e da colegialidade, principiando mesmo por dizer relativamente às vestes tradicionais: “o carnaval acabou”.

Anuncia-se como bispo de Roma, como para se apresentar como um primus inter pares, não sujeito a verdades absolutas e colocando assim os dogmas sujeitos a uma (re) leitura urgente. Não é por acaso que rejeita os sapatos vermelhos optando pelos seus sapatos pretos, um rompimento com tradições que rejeita, como morar no palácio papal. O papa da casa comum, da fraternidade e do ecumenismo, do caminho para percorrer, mas não o papa transformador de toda a cúria, talvez o quisesse, mas não deixam, nem tudo o quer pode ser.

Entretanto aparece um livro intitulado “Do fundo dos nossos corações”, assinado pelo papa emérito Bento XVI e o cardeal ultraconservador Robert Sarah, contra a possível ordenação de presbíteros casados ou a casar. E tudo tendo em consideração que a exortação apostólica acerca deste assunto que em breve será publicada, recomendando que os diáconos casados poderão ser ordenados presbíteros, principalmente na Amazónia, mas que se tornará uma indicação clara para toda a Igreja. Bento XVI já fez constar que o seu nome não deve aparecer no livro. No entanto por mais desmentidos que faça a sua posição e da igreja conservadora é essa. A mensagem passou, o clero deve ser solteiro, negando a afetividade que o Senhor deu a Adão e Eva, quando lhes disse para se reproduzirem e cuidarem da Criação. Até porque a “castidade” e a “virgindade” não passam necessariamente pela não fecundidade ou ausência de relações sexuais. E onde estas começam e onde acabam? A castidade e a virgindade se fossem isso, estávamos todos bem no mundo universal, mas o seu significado tem que ver com o cântico de Maria, que como “humilde serva” se entrega a favor dos outros, “derruba os poderosos de seus tronos” e “exalta os humildes”. Esta entrega e decisão é de quem é casto e virgem, mas em nada significa a ausência ou não da afetividade ou relação sexual.

Os diáconos – e todo o Povo de Deus -, os presbíteros e os bispos, devemos todos aprender com este filme e o livro. Estes estão aí e devem ser vistos e lidos, a sua reflexão é para todas e todos nós a firmeza do que o Senhor quer de cada uma e cada um. A afetividade e a sexualidade nada possuem de mal, não são pecados, antes são criação de Deus. Jesus libertou-nos, para a liberdade, o que faz de nós não-dogmáticos, servidores do Evangelho. Nós não somos castrados, se o fossemos não seriamos criados assim, não existiria humanidade.
Temos toda a consideração por aquelas e aqueles que tomam o caminho de serem solteiros e assim querem estar, ou por outras formas de vida, em família ou não, mas não poderemos impor com os nossos atos e atitudes prepotentes um só caminho. Para atingir a Verdade, o Caminho e a Vida, que é Jesus, seguiremos pelas sendas das veredas floridas e acentuaremos que nas marés da Vida, todos somos Filhas e Filhos de Deus e capazes de O servir, servindo o (a) outro (a). Não queiramos impor disciplinas que nunca emergiram da Palavra, da Tradição ou da Razão.

Joaquim Armindo

Diácono – Portugal

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