DÁ COM UMA MÃO E QUE A OUTRA NÃO VEJA

DÁ COM UMA MÃO E QUE A OUTRA NÃO VEJA

Em certa ocasião Jesus, como refere São Mateus 6-2, diz: “Quando, pois, deres esmola, não permitas que toquem trombetas diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: Já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo; e o teu Pai, que vê o oculto, há-de permear-te.” O que Jesus quer dizer aqui é que quando fizeres o bem não queiras agradecimentos, e muito menos que o seja para a tua consciência ficar tranquila. Em primeiro, quem faz bem a outrem, quer seja a pessoas, quer seja a seres vivos ou mesmo abióticos, está a fazer aquilo que tem obrigação de fazer, o bem não merece elogios de ninguém, por isso mesmo não queiramos expor o bem, a caridade, que é o Amor, ao agradecimento de outros. Fizeste o bem, não fizestes nem mais, nem menos, que a tua condição de Filha ou Filho de Deus. Em segundo lugar – a mão esquerda, não deve saber o que faz a mão direita -, é se quando queremos fazer o bem, não ser por este, mas para sossegar a consciência; ora isso, não é assim, sossegar a consciência é uma Ecologia Espiritual, uma Conversão Ecológica (note-se: ecologia não é só igual a ambiente). Por isso, quando fizeres o mal, não é o bem que o apaga. O sacrifício dos cordeiros do povo judaico não apagava o mal feito, apenas apaziguava a consciência de quem o cometeu. Jesus fala numa reconciliação com o outro e com o Outro, no caminho aberto pela sua morte e ressurreição.
Mais adiante e no Evangelho de São Marcos, capítulo 1, 41-44, aparece a Jesus um leproso que queria ficar sem lepra. Diz o Evangelho “compadecido Jesus estendeu a mão tocou-o e disse: “Quero, fica purificado”. Imediatamente a lepra deixou-o, e ficou purificado. E logo o despediu, dizendo-lhe em tom severo: “Livra-te de falar disto a alguém…”. Os leprosos eram gente com quem não se podia ter conversas, este, no entanto, ousou dirigir-se a Jesus. Jesus “purificou-o”, isto é, deu-lhe a Vida, deu-lhe um nascimento novo, é isso a purificação. Mas o que mais nos interessa agora, é o que disse a seguir “não digas nada a ninguém”, claro que o antigo leproso foi anunciar a toda a comunidade o que aconteceu. Mas isso não traduziu a vontade de Jesus, para que ninguém soubesse quem o fez. Alguns dizem que foi “tática” de Jesus, por não ser a sua hora, para mim não seria isso, porque não me parece que Jesus tivesse táticas, como hoje somos mestres em ter. O que teria sido era não mostrar que o bem que fez, fosse propalado, é a questão da mão direita e da esquerda.

É legitimo que agora perguntem aqueles e aquelas que fazem o favor de me ler, que tem isto a ver com o nosso tempo? Será lógica a pergunta.

Continuamos a viver num tempo de pandemia onde acolher quem sofre tem uma acuidade muito grande. Tantos partilham, tantos estão em linha da frente das batalhas e merecem a nossa gratidão. Também a Igreja o faz. Existem inúmeros casos onde a Igreja vem intervindo diretamente, num incessante apelo prático para que esta “lepra” seja levada de vencida. E faz bem. O que continuo a pensar em que não faz bem em anunciar com parangonas aquilo que é seu dever fazer. Não está a esconder da mão esquerda o que faz a mão direita. Será por questões de consciência? Serão questões táticas para ver quem vai primeiro na carruagem?

Não pode ser prática da Igreja aparecer com os mais altos governantes políticos – como aconteceu em Portugal -, para fazer valer os seus pergaminhos em defesa dos mais desfavorecidos. E vamos ter com os mais altos governantes para lhes dizer, e fazemos vir esses mais altos governantes para eles verem. Não estará a sossegar a sua consciência perante o povo – segundo a forma como vejo -, que tal acontece? A Igreja está onde for necessário, ao lado dos mais desprotegidos, quer sejam das vielas ou das avenidas. Mas só faz o seu dever, mau seria se não o fizesse. Transbordar tal para que os poderes políticos o reconheçam, isso não. Não estamos a levar a mensagem de Jesus e a compreender que somos servos inúteis.

Que pelo menos, nós os diáconos saibamos proceder como Jesus quer: não dizer a ninguém. Muito menos em todos os canais televisivos e jornais, isso não será para descansar as consciências? Se o é, façam ORA+AÇÃO, só isso, e estaremos a cumprir o que Jesus, sem táticas quer, sem “corridas” cujo prémio é um chapéu. Os diáconos não têm chapéu e ainda bem! Pelo menos que nós, juntamente com os presbíteros e os bispos, que estejam dispostos a agir nas “catacumbas”, saibamos aprender o que Jesus quer e ensinou: não saiba a tua mão esquerda, o que faz a direita.

Joaquim Armindo

Diácono – Porto – Portugal

Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental

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