À serviço da Celebração da Palavra e da Eucaristia

Diácono Georges e Marie Josette Bonneval – Fundadores da Comunidade Sementes do Verbo – Palmas, Tocantins

O tema deste mês dá-me a ocasião de apresentar um mistério ordenado ao serviço da Palavra e da Eucaristia que é o Diaconato permanente. Mas para isso, nós vamos considerar esse ministério, articulando-o a outros ministérios da Igreja, que também estão a serviço da Palavra e da Eucaristia.

Desde as origens da Igreja, tanto nos Atos dos Apóstolos quanto nas cartas de S. Paulo, são evocados diversos ministérios à volta dos Doze Apóstolos, aos quais foi confiada a missão de ir: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulas, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” (Mt 28, 19) Os ministérios relatados estão estabelecidos em três ramos: os “epíscopos”, os “presbíteros” e os “diáconos” que são respectivamente, segundo os seus nomes, os que vigiam sobre o rebanho como sentinelas, como anciãos e servos no seio das primeiras comunidades cristãs.

O diaconato remonta aos primeiros tempos da Igreja, tal como é referido pelo evangelista S. Lucas (Cf. At 6,1-6). Mesmo nos primeiros séculos, o diácono, como colaborador direto do Bispo, tinha por principal tarefa a organização da solidariedade para com os pobres. Desde o segundo século, S. Inácio, Bispo de Antioquia, que foi discípulo direto dos Apóstolos (Pedro e João), descreve nas suas cartas com uma certa precisão, a relação entre as três responsabilidades eclesiais conhecidas nas comunidades de sua época: “Porque eu vi e amei na fé toda a vossa comunidade. Por isto vos peço que estejais dispostos a fazer todas as coisas na concórdia de Deus, sob a presidência do bispo, que ocupa o lugar de Deus, dos presbíteros, que representam o colégio dos apóstolos, e dos diáconos, que são muito caros para mim, aos quais foi confiado o serviço de Jesus Cristo, que antes dos séculos estava junto do Pai e por fim se manifestou.” (S. Inácio de Antioquia, in Carta aos Magnésios, nº6)

O diácono aparece então como um servo a quem foi confiado o “serviço de Jesus Cristo.” Lembremo-nos, com efeito, que o Diácono por excelência é Jesus Cristo, o Servo que “não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28). Recordemo-nos igualmente que, na Igreja local, é o Bispo que é o primeiro Diácono, isto é, “o primeiro dos servos”, e que os diáconos participam à sua Ordem, na linha do serviço, da mesma forma que os padres têm parte na sua Ordem, na linha do sacerdócio. “Se, portanto, Eu, o Mestre e o Senhor, vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais.” (Jo 13,14-15)        Contudo, a Diaconia de Cristo não se reduz apenas a serviços prestados, nem a uma banal realização funcional, mas ela é uma consagração de Sua humanidade entregue numa oblação total de amor. Da mesma maneira, para os Diáconos, a ordenação sacramental se inscreve no íntimo da pessoa (como de um “caráter sagrado”) e a transforma ao longo de toda a sua vida, segundo o ministério que lhe é próprio. O termo “ordenação” vem do latim “ordinatio”, que significa integração no “ordo” isto é, no corpo constituído. No que diz respeito aos ministros ordenados, o corpo constituído é o do Clero.

Assim, neste espírito de servo, o Diácono, durante a Oração Eucarística, permanece no altar de pé, ao lado do padre. Esta atitude de serviço no altar é um estado de disponibilidade e vigilância, estando o diácono pronto a servir, em resposta às necessidades do presidente ou da assembleia. Orientado para o Sacrifício Eucarístico, a sua oração e a sua ação de graças ajuda e acompanha a comunidade a participar plenamente desse ministério. Na doxologia final da Oração Eucarística, o diácono eleva o cálice, ao lado do padre (ou do Bispo) e participa silenciosamente da contemplação do sacrifício de Cristo na ação do Espírito.

Numa linha teológica desenvolvida pelo Concílio Vaticano II, particularmente na Constituição LG em 1964, tornou-se mais preciso a definição de cada um dos ministérios: os padres têm uma participação no sacerdócio e na missão de seu bispo como “cooperadores na ordem episcopal”, enquanto os diáconos recebem a imposição das mãos “não em ordem ao sacerdócio, mas ao ministério”. “Com efeito, fortalecidos com a graça sacramental, servem o Povo de Deus em união com o Bispo e o seu presbitério, no ministério da Liturgia, da palavra e da caridade.” (L G, nº29)                        O Concílio Vaticano II previa a restauração do ministério diaconal permanente deixando a decisão ao Santo Padre. Com efeito, pouco tempo após o Concílio, três anos após a Constituição LG, o Beato Paulo VI restabeleceu o diaconato permanente na Carta Apostólica “Sacrum Diaconatus Ordinem” do dia 18 de Junho de 1967. A linha teológica conciliar fala do Bispo (no singular), como Pastor único, depois dos padres e dos diáconos (no plural), para sublinhar que, numa Igreja local, o Bispo, em ligação direta com o Sumo Pontífice e os outros membros do Colégio episcopal, “é por si só, princípio e fundamento da unidade” de sua Igreja particular. (Cf. LG nº 23)

Conhecemos santos diáconos que marcaram a vida da Igreja: -Santo Estevão e S. Filipe, a serviço da primeira comunidade cristã em Jerusalém; -S. Lourenço, pai dos pobres, martirizado em Roma em 258; -S. Vicente, porta-voz de seu Bispo, martirizado em Saragoça (Espanha) em 304; -S. Francisco de Assis (1181-1226), fundador da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos). Na hora da sua morte, a Ordem contava com quase cinco mil irmãos. Mas entre os séculos VI e VII, o diaconato reduziu-se progressivamente a uma simples etapa para o presbiterado. Foi durante a Segunda Guerra Mundial (de 1939-1945) e no período do pós-guerra que germinou a idéia de fazer reviver o diaconato na Igreja. Esta necessidade se impôs face à situação dos campos de concentração e também dos refugiados.

Como assegurar sacramentalmente a presença de Cristo sofredor e ressuscitado quando a Reunião Eucarística não era mais possível? Como a Igreja poderia servir eficazmente aos homens, ao lado das diversas organizações internacionais, para socorrer os refugiados e os sem-abrigo? Quem saberia fazer o laço entre a causa das vítimas e a causa de Deus? Os Pastores da Igreja que colocaram estas questões pensaram que novos modos da presença da Igreja deveriam ser inventados nessas fraturas do mundo. A figura do Servo, nesses lugares de sofrimento se impôs pela presença de uma Igreja serva e pobre ao lado das vítimas das guerras e das provações da História.

Cada ministro da Ordem sagrada: bispo, padre, diácono… recebeu a graça de Deus com o propósito de comunicá-la. Pela ordenação, ele é beneficiado por uma configuração a Cristo mais íntima, não para si mesmo, mas para servir o Povo de Deus, segundo os desígnios benevolentes do Pai, para que este seja plenamente, um povo de sacerdotes e de reis. Se podemos reconhecer naturalmente a imagem do Bom Pastor no ministério do Bispo assim como na do Padre; poderíamos reaproximar o ministério do Diácono à imagem da Porta: “Em verdade, em verdade, vos digo: eu sou a porta das ovelhas.” (Jo 10,7) Com efeito, o Diácono é um ministro privilegiado de proximidade e de comunicação, como é vivido na liturgia oriental. Ele é mesmo uma “ligação” viva entre o Povo de Deus e os outros ministros sagrados, da mesma forma, liga aqueles e aquelas que estão mais longe ou mais afastados, às margens da Igreja.

Esse ministério de articulação é realizado entre a Igreja hierárquica e o povo de Deus, ou seja, os leigos, cujo nome significa “membros do povo” (“laos” significa “povo” em grego). A Igreja é o povo de Deus, e no seu seio, os bispos, os padres e os diáconos estão ao seu serviço para que todos os membros se tornem plenamente membros do Corpo de Cristo. O Concílio situa o diaconato como articulação entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial e funda sacramentalmente a identidade do diácono na comunhão com o bispo e o padre, num único sacramento da Ordem. Por outro lado, a Eucaristia revela ao diácono, seu ser e sua vocação. Ele é aquele que une sacramentalmente o serviço do altar ao serviço dos irmãos. A Eucaristia e o serviço dos pobres são inseparáveis, pois a Eucaristia é, no Corpo de Cristo, a fonte de todo o serviço autêntico dos homens. Aquilo que deve preocupar o diácono não é somente o culto prestado a Deus ou o serviço dos homens, mas a articulação entre os dois.

Enfim, o diácono se confia à Virgem Maria como padroeira, e reconhece nela, esse serviço humilde e discreto assim como a sua intercessão aos pés da cruz. Ela é a “mulher diaconal”, que não para de dar graças no seu Magnificat, como a humilde serva do Senhor. “Em grau inferior da hierarquia estão os diáconos, aos quais foram impostas as mãos ‘não em ordem ao sacerdócio mas ao ministério’. Pois que, fortalecidos com a graça sacramental, servem o Povo de Deus em união com o Bispo e o seu presbitério, no ministério da Liturgia, da palavra e da caridade. É próprio do diácono, segundo for cometido pela competente autoridade, administrar solenemente o Batismo, guardar e distribuir a Eucaristia, assistir e abençoar o Matrimônio em nome da Igreja, levar o viático aos moribundos, ler aos fiéis a Sagrada Escritura, instruir e exortar o povo, presidir ao culto e à oração dos fiéis, administrar os sacramentais, dirigir os ritos do funeral e da sepultura. Consagrados aos ofícios da caridade e da administração, lembrem-se os diáconos da recomendação de São Policarpo: ‘misericordiosos, diligentes, caminhando na verdade do Senhor, que se fez servo de todos’.” (Constituição Dogmática Lumen Gentium, nº 29)

 

Tomado: cnd.prg

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