A PADROCENTRIA – UM DOCUMENTO INFÉRTIL E INUTIL

A PADROCENTRIA – UM DOCUMENTO INFÉRTIL E INUTIL

Doutorado em Direito Canónico, pela Pontifícia Academia Eclesiástica, o Cardeal Beniamino Stella, Perfeito da Congregação para o Clero, emitiu uma instrução, infértil e inútil, sob o título fértil e útil, “A conversão pastoral da comunidade paroquial ao serviço da missão evangelizadora da Igreja”. O documento parte de uma linguagem e considerações que se colocam à Igreja, enquanto comunidade paroquial, que parecem conter uma modernidade que faria a Igreja partir para a sua “saída” evangelizadora, mas não é assim nas suas decisões práticas. Alguém escreveu que o “cheiro a ovelhas” de que o bispo de Roma, tanto gosta, não passa por esta Congregação para o Clero e muito menos para o seu Cardeal Presidente. A conversão pastoral que aqui se apresenta – no documento -, é bem diversa da que o papa Francisco nos habitou; as suas encíclicas quão longe andam desta instrução, bastará ler a “Querida Amazónia”, para verificar que não reflete o que é escrito. Na encíclica “Louvado Sejas” o papa apresenta a sua negação do antropocentrismo, isto é, no centro do universo não existem só homens e mulheres, mas também seres vivos, e até abióticos. O documento agora publicado por Stella assenta sobre o modelo do padreocentrismo, ou seja, no centro da igreja paroquial comunitária existe a figura do padre, nada mais. Não estou aqui a atacar os senhores padres, mas a ideia do padre-clerical, aquele que dirige e tudo sabe. O clericalismo baseado numa só imagem a do padre, é de quem nem percebeu, sequer, nada da alteração paradigmática da igreja. Negar o Cristocentrismo, Cristo na presidência, Cristo que converte, Cristo que é o Senhor, Cristo que perdoa, Cristo que dá o seu corpo e o seu sangue, é retomar ao trono presidencial dos padres, que tudo sabem, mesmo daquilo que não sabem. Exemplo: em princípio, os padres ocidentais não sabem o que é ser casado; agora sabem, porque o Benjamino assim o escreve.

Ainda bem que retirou os diáconos deste “centrismo”, porque muitos de nós sentíamo-nos muito mal. As suas preocupações fundamentais são que o diácono “não é sacerdote” e por isso aquilo que for confiado a “diáconos, consagrados e fiéis leigos” [que consolo que os diáconos pertencem ao povo de Deus], deve ter uma terminologia própria que não se confunda com os “sacerdotes», leia-se os padres que todo sabem, menos o “cheiro das ovelhas”. Assim, muito cuidado, que as expressões “pároco”, “pastor”, “capelão”, “moderador”, “coordenador”, “líder paroquial”, “confiar a pastoral de uma paróquia”, “presidir a comunidade paroquial” ou outras semelhantes só aos padres estão reservadas. Dá mesmo o exemplo que ao diácono não se pode dizer “diácono cooperante” e aos leigos ou consagrados “coordenador de …(setor pastoral)”, ou “cooperador pastoral”, “assistente pastoral” ou mesmo “responsável por… (um setor pastoral”. O que aqui se diz deve ser refletido pelos presbíteros e bispos, dada a sua gravidade. De facto, o presidente da Congregação para o Clero, está longe, mas muito longe, das realidades paroquiais, o seu curso é de diplomacia. As igrejas da Amazônia ou as Conferências Episcopais europeias, e neste pormenor a Francesa e a Alemã, estão a ir em sentido completamente contrário ao que o Cardeal Sttela requer.

Cita, com indecência, o papa Francisco sobre os diáconos, quando lhes chama “guardiões da fé”, no serviço ao altar do mundo. Nós sabemos isso, mas muito mais porque somos Povo de Deus, sacramento eucarístico enraizado nos mais marginalizados. Conjugando todo o documento esta referência aos diáconos vem na sequência dos “títulos” já mencionados e que só aos padres dizem respeito. Se não existirem padres suficientes então os diáconos poderão celebrar a liturgia da palavra aos domingos e dias de preceito, os batismos, o ritual funerário e os casamentos, mas sempre baseado no Direito Canónico. Em tempo: lembro que em algumas dioceses os bispos proibiram a celebração da palavra pelos diáconos ao domingo, porque é preferível não existir celebração, a ser realizada pelo diácono, então aqui o Cardeal para o Clero, deixa uma brecha, que pode ser fechada pelas leis canónicas.

O Direto Canónico está à frente da “conversão pastoral da comunidade”. Se determinada comunidade não se alimenta da eucaristia – fonte fundamental da fé cristã – porque não há padres, está tudo até muito bem, primeiro o cumprimento da lei, depois a alimentação do sacramento eucarístico. Para o senhor Cardeal Sttela o sábado não foi feito para o homem, mas o homem para o sábado, portanto se uma “ovelha” cair ao poço em sábado, não se pode salvar. A lei não permite.

Os presbíteros e os bispos que já há muito deixaram o clericalismo não podem concordar com o articulado de toda a instrução, o que ela pretende ser, é exatamente o que não quer ser. E aqui fica: nunca o diaconado pode estar de acordo, corresponsável, com este texto, e fica muito bem de fora do “Padrocentrismo”. É altura de compreender o que foi dito sobre a Amazônia e a Conferência Episcopal Alemã, e estarmos na conversão da comunidade paroquial, elevando a nossa voz em defesa do Reino do Senhor, do Povo de Deus. Não queremos, nem podemos, por amor a Jesus, ser centro de nada, porque lá mora o Senhor. Se não pudermos de outra forma, rezemos pelo senhor Cardeal e a sua Congregação, por uma conversão a Jesus de Nazaré.

Joaquim Armindo

Diácono – Porto – Portugal

Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental

Pós – Doutorando em Teologia

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