Enviado por: Diácono  Mario Henrique Pinto

Realizou-se a 7 de fevereiro de 2017 no Centro de Cultura Católica, a segunda conferência do ciclo «Diaconado: Ministério e Missão», programado por ocasião da celebração dos 25 anos do diaconado permanente na diocese do Porto. O Cón. João da Silva Peixoto, diretor do Secretariado Diocesano de Liturgia e pároco de Ermesinde, abordou o tema «Diaconado e diaconia da liturgia».

A partir do II Concílio do Vaticano, situou a sua reflexão sobre o diaconado enquanto serviço ao povo de Deus no quadro da única diaconia, concretizada em três vertentes exercidas na comunhão hierárquica para o bem do mesmo povo: a diaconia da palavra, da liturgia e da caridade. Constatou, contudo, sem concluir pela casualidade ou pela intencionalidade, que para os diáconos a «Lumen Gentium» optou por referir primeiramente a diaconia da liturgia. Este aspeto permitiu-lhe mencionar que ao indicar as funções atribuídas aos diáconos aquele documento começa por atribuições no âmbito da vida sacramental, só depois apontando os ofícios no âmbito da caridade e da administração. Paulo VI teria oportunidade de alongar o elenco das atribuições, mas sem lhe alterar a ordem. As «Normas Fundamentais para a Formação dos Diáconos Permanentes» e o «Diretório do Ministério e da Vida dos Diáconos Permanentes» já regressam à ordem tradicional, começando pela diaconia da palavra. Tais atribuições não vêm, contudo, do sacramento da ordem, pois todas as celebrações referidas podem ser celebradas também por cristãos leigos nos termos e circunstâncias previstos pelo direito.

É, pois, questionável algum ensaio que pretenda compreender o diaconado a partir de qualquer suposto poder sacramental que amenize a falta de presbíteros. Pode ter sido, contudo, esta a perspetiva latente na restauração do diaconado permanente também na diocese do Porto. Assim na vida dos diáconos a diaconia da liturgia tornou-se não só primária, mas também prevalente e com tendência para exclusiva. É, pois, necessário levar muito mais a sério a formação litúrgica inicial e permanente dos diáconos, para que, enquanto a sua diaconia não se abrir a outras dimensões, ao menos façam bem aquilo que fazem. É verdade, contudo, que mesmo no período antigo, em que a diaconia da caridade foi muito importante, a diaconia litúrgica também esteve em realce, como evidencia a própria iconografia que apresenta os diáconos sempre com vestes diaconais. Assim também hoje os diáconos não se podem esconder nem serem escondidos nas celebrações das comunidades que os têm.

A conferência prosseguiu com algumas anotações para a vivência diaconal da diaconia da liturgia. O orador referiu que os futuros diáconos antes são leitores e acólitos instituídos, exercendo estes ministérios durante algum tempo, não apenas por uma conveniência psicológica de validar o itinerário formativo dos ordinandos que os ajude, assim como às famílias e comunidades, a assimilar gradualmente o novo estatuto. Trata-se sobretudo de uma oportunidade pedagógica e de discernimento, tendo em conta o ministério litúrgico que virão a desempenhar. Assim o leiturado e o acolitado não podem ser uma formalidade processual no percurso para o diaconado, sem incidência real na vida de quem se oferece para o ministério, com consequências funestas para a vida litúrgica das comunidades.

A exposição continuou com a abordagem da eucaristia enquanto fonte e cume da diaconia do diácono. Ao definirem a sua identidade teológica, as «Normas Fundamentais» dizem que ele é sinal sacramental de Cristo servo. Tal acontece no anúncio da palavra, na liturgia e na caridade. No plano concreto do exercício, não há um modelo único e é necessário ter em conta as situações pastorais de cada Igreja. Na hora atual será porventura necessário promover sobretudo a diaconia da caridade, não porque a diaconia da liturgia não seja importante, mas porque esta não precisa tanto de ser promovida, na medida em que todos a veem. Contudo, muito a propósito dizem as «Normas Fundamentais» que o ministério diaconal tem o seu ponto de partida e de chegada na eucaristia. Não pode reduzir-se a um simples serviço social. Deve, pois, dar-se visibilidade litúrgica ao diácono sobretudo na celebração eucarística, não tanto para lhe emprestar uma solenidade acessória, mas para fazer dela uma expressão mais plena da Igreja e da importância que sempre atribuiu à diaconia da caridade, que tem na eucaristia o seu cume e a sua fonte. Depois da normalidade anómala da ausência do diácono na liturgia, vai sendo tempo de propor a verdade litúrgica e ministerial da celebração eucarística como epifania privilegiada do mistério da vida da Igreja.

O Cón. João Peixoto refletiu depois sobre a presidência litúrgica dos diáconos, uma área menos relevante, mas com importância pastoral. De facto, a presidência compete propriamente aos bispos e na sua ausência aos presbíteros. Os diáconos, contudo, em certas circunstâncias têm também uma presidência supletiva, se bem que efetiva. A evidência de que o diácono não é ordenado para presidir constata-se no facto de que não preside à eucaristia, que faz a Igreja. Presidindo, contudo, liturgicamente em certas circunstâncias, os diáconos não deixam de recordar a quem preside que toda a presidência é diaconia. A presidência, também a dos diáconos, reveste-se, pois, de exigências. Quem preside tem de exprimir a dimensão transcendente da assembleia convocada por Cristo em união com as demais comunidades da Igreja, atualizando os sinais da presença presidencial do Senhor. A presidência litúrgica implica a valorização imprescindível da assembleia. Aquele que preside não só pertence a ela e está à sua frente como seu delegado ou porta-voz, mas está sobretudo diante dela e para ela. Presidir é acolher, coordenar, estar presente não só fisicamente mas ativa e interiormente, abrir e encerrar a celebração no seu todo e nos seus diversos conjuntos, dizer as orações presidenciais identificando-se verdadeiramente com a oração da Igreja, realizar os gestos essenciais constitutivos dos sacramentos… A atenção à presidência, também através da veste litúrgica, que para o diácono é a dalmática, não significa exaltar o ministro, mas exprimir o facto de que Cristo o assume ao seu serviço. Em suma, é preciso que quem preside estude o guião, conhecendo muito bem os preliminares, onde está o conceito e o projeto da Igreja.

O conferencista aludiu, por fim, a alguns aspetos que gostaria ainda de ter tratado, designadamente a homilia nas celebrações presididas pelo diácono, assim como o diácono na liturgia das horas. Seguiu-se um tempo de prolongado diálogo com os presentes e o encerramento da sessão pelo P. Joaquim Santos, delegado diocesano para o diaconado permanente, que agradeceu a intervenção, fez algumas observações e informou que o ciclo se conclui a 7 de março com a conferência «Diaconado e diaconia da palavra», proferida pelo P. Manuel Mendes, pároco de Matosinhos.